terça-feira, 9 de dezembro de 2008
O Presente das Letras
Todas as Letras já tinham a sua prenda escolhida, bom todas menos algumas.
O presente da Letra B era ser o segundo no abecedário, U era ser uma vogal, X era entrar no nome Xana… ainda havia mais prendas.
As Letras A, E e O não tinham prenda de Natal.
Eram gozados pelas outras Letras.
Um dia as vogais que não tinham escolhido presente, juntaram-se em casa do O.
A primeira Letra do abecedário, o A teve uma ideia e exclamou:
-Já sei, amigos! Tive uma ideia!
-Conta! – disse o E, entusiasmado.
-Vamos escrever uma carta ao Pai Natal, a dizer que não tivemos tempo de escolher a nossa prenda e que pedimos desculpa. – disse o A.
-Boa ideia! – exclamou o O.
Na Noite de Natal aquelas vogais dormiam.
O Pai Natal com pena daquelas Letras ofereceu-lhes um presente: vários sons.
É por isso que o A, E e O têm vários sons.
Ana Patrícia Ferreira de Almeida de 9 anos
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
A Aia
(Em cena estão a Aia, o Rei, a Rainha, o Escravozinho e o Príncipe)
REI – Adeus, minha querida, vou partir para batalhar por terras distantes.
RAINHA – O que vai ser de mim, que fico solitária e triste, sem poder defender o nosso principezinho dos seus ferozes inimigos?
REI – Enquanto eu estiver vivo, ninguém lhe fará mal. Quando eu regressar, o nosso filho será o herdeiro de um reino muito maior e mais importante. Adeus, minha querida e adeus, meu filho (dá um beijo à Rainha e outro ao Príncipe deitado no seu berço real e depois parte, deixando a Rainha triste).
AIA – Pressinto que algo de mau vai acontecer… (amamentando as duas crianças…).
(Entra um Cavaleiro em cena, ensanguentado por uma batalha perdida).
CAVALEIRO – Majestade, trago más notícias. Perdemos a batalha e o nosso rei morreu juntamente com o seu exército.
RAINHA – (Gritando) O que será de mim e do meu Príncipe, que não se pode defender… Ele tem tantos inimigos e o pior é o seu tio, um homem bravio como um lobo, que quer mandar neste reino e nos nossos tesouros. Ele descerá lá dos montes e matá-lo-á para ficar herdeiro do reino.
AIA – Descanse, majestade, que o nosso Rei lá no Céu velará por nós… (enquanto chorava e beijava o príncipe).
RAINHA- Uma roca não governa como uma espada. Eu, uma frágil mulher, não conseguirei comandar um exército para defender o nosso Príncipe….
(A Rainha sai de cena, chorando…)
AIA – Estão a invadir o castelo! É o malvado tio bastardo… (beijando as crianças, troca-as de berço e cobre-as).
(Entra em cena o tio e, olhando para os berços, retira a criança que estava no berço mais rico, fugindo com ela ).
(Entra em cena a rainha, correndo chorosa para o berço onde estaria o seu filho e, ao vê-lo vazio, desmaiou. A Aia pega na rainha pela mão e dirige-se ao berço do seu filho e destapou-o, mostrando o Príncipe, que dormia).
CAPITÃO (entrando) – Matámos o Bastardo, mas o Principezinho também morreu esganado…
RAINHA – O Principezinho está aqui…. (ergueu os braços com o príncipe).
POVO – Quem o salvou? Quem?
RAINHA – Foi a Aia que sacrificou o seu filho em vez do príncipe! (abraçando-a).
POVO – É preciso recompensar esta mulher! Mas como? Que bolsas de ouro podem pagar um filho?
CAPITÃO – Levem-na ao tesouro real para ela escolher as riquezas que quiser.
(Dirigem-se ao tesouro real)
POVO – Ah! Tantas riquezas! Que Jóia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubis ela escolherá?
AIA(agarrando um punhal) – Salvei o meu Príncipe. Agora vou dar de mamar ao meu filho! (Crava o punhal no coração).
Jorge Almeida
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
A Visita do Menino Jesus
Peça de Natal infantil
(Foi na noite de Natal. Um anjo apareceu a uma família muito rica e falou com a dona da casa. O aparecimento do Anjo deve ser acompanhado com uma música religiosa.)
Anjo: - Trago-lhe uma boa notícia: esta noite o Senhor Jesus virá visitar a sua casa!
Dona da casa: Vem visitar a minha casa?!... Que maravilha nunca pensei que esse milagre pudesse acontecer. Vou telefonar às minhas amigas, elas vão ficar a subir as paredes de inveja!
Maria, Maria ! Venha aqui imediatamente. Prepare um jantar especial que vamos ter uma visita muito importante. Quero tudo bem limpo e arrumado.
Criada: Sim, minha senhora é para já. Vou tratar de tudo, mas desculpe a curiosidade quem é esta visita tão especial ?
Dona da casa: Isso não é da sua conta sua metediça. Vá mas é trabalhar depressa que não quero atrasos. Esta gentinha não sabe ocupar o seu lugar. Tininha, Francisco venham cá, tenho uma óptima notícia para vocês.
Tininha: O que é mamã, chamaste?
Dona da casa: Sim, filha, olha, fomos escolhidos para receber uma pessoa muito importante. Jesus vem visitar-nos esta noite. Vai já vestir a o teu vestido das festas e não te atrases para o jantar.
Marido: Querida, estás tão eufórica, o que se passa?
Dona da casa: Francisco, nem vais acreditar mas esta noite fomos escolhidos para receber Jesus. Aqui para nós, isto só pode ser por recebermos tão bem e darmos festas tão bem organizadas. Já imaginaste os nossos amigos, vão ficar roídos de inveja quando souberem.
Francisco: Ó Dadá, eu não quero estragar o teu entusiasmo, mas tu achas que isso é mesmo verdade?
Dona da casa: Claro que é, foi um anjo que mo garantiu e tu bem sabes que os anjos não mentem. Vá, faz também qualquer coisa, vai à garrafeira e escolhe o melhor vinho que lá estiver. Não te esqueças também do champanhe. Despacha-te! Eu vou arranjar-me.
Criada: Esta endoideceu de vez, agora acha que Jesus vem cá a casa. Com tanta gente boa por aí porque viria Ele visitar esta víbora disfarçada? Mas deixem ver o que é que isto vai dar, para mim já sei, ainda mais trabalho, mas já estou habituada.
(De repente, tocaram a campainha. Era uma mulher com roupas miseráveis, com aspecto de quem já sofrera muito.)
Dona da casa: Ó Maria, não ouve a campainha? Para além de ignorante também é surda!
Mulher Pobre: - Senhora, Será que não teria algum serviço para mim? Estou desempregada e tenho necessidade de trabalhar para arranjar sustento para os meus filhos.
Dona da Casa: Ora bolas! Isso são horas de me vir incomodar? E por acaso isto é o Centro de Emprego? Volte outro dia. Agora estou muito atarefada com um jantar para uma visita muito importante.
(A pobre mulher retirou-se. Um pouco mais tarde, um homem, sujo de óleo, veio bater-lhe à porta.)
Camionista: Faz favor! Faz favor! Desculpe, minha senhora, o meu camião avariou aqui mesmo em frente à sua casa. Não teria a senhora, por acaso, um telefone para que eu pudesse comunicar com um mecânico?
(A senhora, como estava ocupadíssima a limpar as pratas, lavar os cristais e os pratos de porcelana, ficou muito irritada).
Dona da casa: Você pensa que minha casa é o quê? A Portugal Telecom?Vá procurar um telefone público... Onde já se viu incomodar as pessoas dessa maneira? Por favor, cuide para não sujar a entrada da minha casa com esses pés imundos!
Criada: Senhora o jantar está pronto.
Dona da casa: Já não era sem tempo. traga para a mesa e chame a menina e o Dr. Francisco.(Nesse momento, alguém lá fora bate palmas.)
Dona da casa: “Será que agora é que é Jesus?” Deixe, Maria, agora vou lá eu.
(E com o coração a bater acelerado, foi abrir a porta. Mas decepcionou-se: era um menino de rua, todo sujo e mal vestido...)
Menino de rua: Senhora, estou com fome. Dê-me um pouco de comida!
Dona da casa: - Como é que eu te vou dar comida, se nós ainda não jantámos?Volta amanhã, porque esta noite estou muito atarefada... não te posso dar atenção.
Menino de rua: Mas ainda hoje não comi nada, até amanhã vou morrer de fome, será que não me pode dar pelo menos um bocado de pão.
Dona da casa: Olha este, para além de pedinte ainda é exigente, ponha-se a andar seu miúdo malcheiroso.
Francisco: Ó Dadá, escusavas de ser tão dura com o miúdo, podias ter-lhe dado alguma coisa. Afinal temos a mesa cheia e essa tua visita com certeza já nem vem!
Tininha: Ó mamã, tenho fome e sono será que não podemos comer?
Dona da casa: Nem pensar, isso é uma falta de educação começar a comer antes de chegarem as visitas. Vamos aguardar mais um pouco.
(Cansados de tanto esperar, acabaram por adormecer.De madrugada, a senhora acordou sobressaltada e, com grande espanto, viu que estava junto dela um anjo. Deve surgir novamente a música religiosa.)
Dona da casa: Seu anjo maldito ! Porque é que me mentiu?Enganou-nos a todos. O que vou dizer às minhas amigas, já telefonei a todas a contar que Jesus nos vinha visitar? Preparei tudo esmeradamente, aguardei a noite inteira e Jesus não apareceu.
Anjo: Não fui eu que menti... Foi a senhora que não teve olhos para enxergar. Jesus esteve aqui em sua casa três vezes: na pessoa da mulher pobre, na pessoa do motorista e na pessoa do menino faminto, mas a senhora não foi capaz de o reconhecer e acolhê-lo em sua casa”.Para receber Jesus é necessário ter o coração preparado.
Final:
(Todos cantam com a música “Pobres dos Ricos” da Floribella
HOJE É NATAL
Cantai bem alto, aos céus e terra,
VAMOS CANTAR COM ALEGRIA:
Que já nasceu o Deus Menino,
FILHO DA SANTA E VIRGEM MARIA.
VÊM PASTORES COM MUITOS PRESENTES
PARA ADORAR O DEUS SALVADOR.
Nós também queremos ir a Belém
ADORAR O MENINO E SUA MÃE.
CANTEM OS ANJOS A DEUS UM HINO
CANTEM OS ANJOS AO DEUS MENINO.
HOJE É NATAL
NASCEU O DEUS MENINO
REI DO UNIVERSO
E FEZ-SE PEQUENINO.
(Adaptado para uma festa de Natal da minha filha)
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Fábula da Joaninha sem Pintas
A joaninha Lisa andava muito triste por não ter pintas e por ser diferente das outras joaninhas. Gostava muito de ter uma pintas pretas sobre as asas vermelhas, mas elas não apareciam. Decidiu queixar-se à Abelha-Mestra, a rainha do insectos.

A Abelha-Mestra disse:
- Toma um pouco mel e espalha pelas asas! Depois deita-te ao Sol.
A joaninha fez o que a Abelha-Mestra sugeriu e adormeceu ao Sol.
Quando acordou reparou que já tinha pintas negras nas asas e ficou muito feliz… Estava tão contente que esvoaçou de flor em flor para que todos vissem as suas pintas…
Quando encontrou a Abelha-Mestra, resolveu agradecer-lhe e perguntar-lhe o como tinha conseguido fazer tal milagre.
A Abelha respondeu-lhe:
- Quando adormeceste ao Sol as moscas sentiram o mel e pousaram nas tuas asas, fazendo as suas necessidades…
- O quê? As pintas são fezes das moscas?
- Sim… Tens o que querias…
- Prefiro ser como era do que ter as minhas asas sujas…
A joaninha Lisa foi tomar um banho ao regato e nunca mais ficou triste por não ter pintas nas asas. A Abelha-Mestra ensinou-lhe uma lição: nunca devemos ficar tristes por sermos diferentes.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Evangelho Segundo Maria Madalena
Prólogo
Actualmente, o Mosteiro de Pombeiro, situado num profundo vale da freguesia de Pombeiro de Ribavizela, no concelho de Felgueiras, com estreitos acessos, como todas as
estradas do município, mostra a sua imponência através de duas elevadas e largas torres, de boa cantaria, que se situam nos dois ângulos da fachada da igreja. Sobre as duas quartelas da cornija exterior dá luz ao interior do templo um espelho de 20 metros de circunferência, tendo como remate um leão altivo sustentando duas medalhas que se supõem reproduzirem as efígies de D. Fernando Magno e sua mulher, mandadas colocar por D. Egas Gomes de Sousa. Existiu diante da porta principal uma galilé que tinha esculpidas na pedra os escudos das armas de todas as famílias nobres de Portugal e assim foi essa galilé uma espécie de incontestável arquivo da antiga nobreza de Portugal.A sacristia da igreja, ampla e alegre, ornamentada de boas pinturas, teve adornos e paramentos riquíssimos, doados pela casa de Sousa.
O mosteiro tem um espaçoso claustro ao centro, guarnecido de altas e grossas colunas coríntias, que suportam a ostentosa galeria que dá maior majestade ao edifício. As paredes do claustro eram forradas por um dos mais belos conjuntos de azulejos existentes em Portugal, onde se retratavam cenas bíblicas e episódios da vida de S.Bento, que certamente inspiraram muitas gerações de frades. Actualmente, já poucos azulejos originais restam pois foram roubados e destruídos.

A frontaria da igreja, simples e elegante, ostenta ao meio uma rosácea, bela e grandiosa, que liga as duas altas torres quadrangulares, e forma uma abóbada de arco abatido, ao fundo da qual se abre a porta principal. Esta porta é constituída por seis arcos seguidos, concêntricos, ornamentados, que assentam sobre capitéis coríntios. De cada lado do patamar, um túmulo com a estátua de um cavaleiro, deitado de costas sobre a tampa. Um destes túmulos tem um escudo brasonado com cinco flores de lis; o outro um escudo com cinco palas. Do lado exterior da porta, uma sepultura que tem gravada, na tampa, uma espada, o contorno já sumido de um escudo brasonado, uma inscrição de caracteres tão gastos que mal se lê a palavra "comitis" e a data de 1260 (que corresponde a 1222 da era cristã); julga-se que tenha sido a sepultura de qualquer conde dos primitivos Sousas, padroeiros do velho mosteiro.
O interior da igreja, dividido em três naves por elegante arcaria, talvez do primitivo templo, não tem ornamentação dos capitéis de pedra, que os frades mandaram cortar e substituir por outra, de madeira, no estilo coríntio. Junto do cruzeiro, um pequeno zimbório abre janelas de toda a volta, sobre a nave central. A capela-mor, com a sua tribuna, é majestosa; os altares, os púlpitos e o coro são elegantes. Perto da sacristia está a capela de NªSª da Piedade.
A construção primitiva do Mosteiro de Pombeiro desenrolou-se entre 1059 e 1102, de acordo com um projecto característico do período do condado Portucalense. No século XII o cenóbio foi ampliado e a igreja modificada para obedecer às directrizes do Românico beneditino (três naves de quatro tramos e cabeceira tripartida). Juntamente com as Sés Catedrais e alguns outros templos, a Igreja românica do Mosteiro de Pombeiro foi das poucas em Portugal a obedecer ao plano de três naves, o que revela a importância desta casa no contexto medieval do país. Com o tempo, Pombeiro tornou-se cabeça das terras de Sousa, chegando a ter sob seu padroado 37 paróquias. Infelizmente, desse período românico apenas restam os dois absidíolos e o portal principal, de quatro arquivoltas. Dos tempos medievais subsistem, ainda, dois túmulos góticos de nobres que escolheram esta casa como local de enterramento, o que prova igualmente a vitalidade do Mosteiro nesta época.
Filipe I de Portugal conseguiu de Sixto V, por volta de 6/3/1586, a cessão de metade das rendas do mosteiro de Pombeiro a favor do mosteiro dos Jerónimos. Por tal motivo nasceu uma demanda, que ainda durava em 1742 e foi decidida a favor dos beneditinos.
No século XVI realizaram-se obras pontuais, mas a grande campanha da Idade Moderna aconteceu durante a Dinastia Filipina. O exterior recebeu duas novas torres, acentuando o seu carácter basilical. De um modo geral, este projecto maneirista é o testemunho da importação para o interior do Minho -, e para o interior de um vale profundo e fértil - de uma arquitectura classicizante de inspiração madrilena. Com o século XVIII surgem grandes transformações no espaço conventual e no interior da igreja. As obras foram iniciadas em 1725 e durante todo esse século o Mosteiro não cessou de ser engrandecido. Durante os séc. XVII e XVIII os bens deste mosteiro cresceram enormemente com as doações, não só de fieis, mas especialmente dos Sousões ( seus padroeiros ). Dos mais antigos, merece especial referência o conde D. Gomes Nunes, um dos grandes vultos da libertação nacional, riquíssimo de bens por parte de seu pai ( o conde galego D. Nuno) e de sua mãe (D. Sancha Gomes, filha dos fundadores de Pombeiro. Entre 1770 e 1773 foram concebidos diversos altares para o interior da igreja e, logo no início do século XIX, remodelou-se o claustro, numa solução neo-clássica sem paralelo nos espaços monásticos do norte do país.
Por altura da II Invasão Francesa, a parte do convento do Mosteiro foi colhida pelas chamas de um incêndio.
Extintas as Ordens Religiosas em 1834, O mosteiro de Pombeiro, que chegou a ser albergaria para peregrinos, também foi extinto, com os mais do país, pelo liberalismo, e os seus bens vendidos como bens nacionais. Em cumprimento da legislação liberal, o convento foi incluído, em 1834, nos bens nacionais e adquirido por duas pessoas naturais de Pombeiro. A igreja continuou a ser a matriz da freguesia.
Na década de 50 do século XX uma intervenção pontual impediu o edifício de ruir.
Em 1999, foi restaurado o seu interior e cometido um crime arquitectónico que foi o de cobrir as pedras interiores com gesso pintado de branco, que actualmente está a ficar negro por causa da humidade.
Com a aquisição de antigos espaços conventuais que ainda se encontravam na posse de privados, funcionando como vacaria (com tectos de gesso, imagine-se!) deu-se início ao Programa de recuperação e valorização do Mosteiro de Pombeiro. Durante o restauro da parte conventual, numa das celas, num buraco tapado por uma pedra, foi encontrado um conjunto de folhas presas por um atilho por um dos construtores civis que procediam ao restauro. À hora de almoço, esse construtor, cujo nome desconheço, foi almoçar com os colegas a um restaurante, onde eu me encontrava. Estava a mostrar o conjunto de folhas aos colegas, dizendo que era de 1573. Como eles falavam em voz alta, essa data despertou-me a curiosidade. Levantei-me da minha mesa e aproximei-me.
- Desculpem interromper! Não pude deixar de ouvir que essas folhas eram de 1573.- interrompi eu, metendo-me na conversa de outros, coisa que eu não costumo fazer.
- Sim, diz aqui 18 de Junho de 1573 – respondeu ele apontando para a primeira página já muito deteriorada.
Apercebi-me de que eram folhas manuscritas, com caligrafia renascentista e que necessitava de ser preservado, porque algumas palavras estavam a desaparecer.
- Onde encontrou isso?
- Encontrei-o no Mosteiro de Pombeiro, porquê?
- Se o encontrou no Mosteiro, tem de o entregar ao IPPAR.
- Será que eles me vão dar uma recompensa?
- Claro que não – responderam os colegas. – Eles não vão comprar uma coisa que já é deles.
- Pois não, mas se mo venderes a mim eu devolvê-lo-ei o IPPAR, depois de o ler.
- Se o devolveres, vão descobrir que eu o tirei e não devolvi.
- Eu nem sequer sei o teu nome e digo que o encontrei numa visita ao mosteiro.
- Quanto é que me dás por ele?
- Mil euros.
- Nem pensar! Dois mil pelo menos. Pois tenho de dar alguma coisa a estes meus colegas para eles se calarem.
- Muito generoso da tua parte – ironizei. – Aceito. Vou ao carro buscar o livro de cheques para te pagar.
E assim comprei o polémico Diário de Frei Luís de Gusmão. Só depois de o ler e adaptar é que o devolvi ao IPAAR.
Apesar do diário estar escrito em Português, as regras ortográficas no século XVI eram diferentes das actuais e há muitos arcaísmos que tive de actualizar, através de um dicionário de arcaísmos. Como eu não tenho muito jeito para inventar, o que se vai seguir é a simplesmente a tradução/actualização do diário do Frei Luís de Gusmão. Penso que ao divulgar este diário estou a fazer algo mais importante pelo diário do que se o tivesse entregado imediatamente ao IPPAR para o guardarem secretamente na Torre do Tombo.
DIÁRIO
18 de Junho de 1573
Eu sou Frei Luís de Gusmão, nasci em 11 de Junho de 1541, em Guimarães, e resolvi seguir a ordem de S. Bento.
Cheguei a este Mosteiro a 19 de Janeiro de 1560 e fui, desde 21 de Fevereiro de 1571, até hoje, conservador da Biblioteca do Mosteiro de Pombeiro. Comecei hoje a escrever este diário, porque, há um mês atrás, enquanto organizava a biblioteca, encontrei um livro que me deixou muito curioso e comecei a traduzi-lo literalmente. O livro empoeirado e em avançado estado de degradação estava escrito em grego e eu, felizmente, conheço essa língua, porque o meu tio D. Manuel de Gusmão, abade de S. Torcato, me ensinou Grego e Latim, dizendo que eram muito importantes para a formação de um homem de letras. O título da obra era “Evangelho Segundo Magdala (ou Madalena)”. Este título deixou-me intrigado: teria Maria Madalena, que todos consideravam prostituta ou adúltera, escrito um evangelho? Teria sido escrito por outros em seu nome? Que novidades traria acerca de Jesus? O livro era possivelmente uma tradução grega de outra versão mais antiga, escrita noutra língua.
O que é certo é que eu comecei a traduzi-lo e encontrei muitas novidades acerca de Jesus. Quando tinha a tradução num estado avançado divulguei-a ao meu superior D. Rodrigo de Sousa que, depois de ler a minha tradução, não só não ma devolveu, como exigiu que lhe entregasse o livro original, proibindo-me de falar acerca do livro e da minha tradução. Como eu insistisse que era importante para o estudo de Jesus e do início do cristianismo, ele respondeu-me que importante era preservar a fé, mas que ia enviar o livro e a tradução ao Inquisidor Mor para ele dar um parecer acerca do livro. Eu referi que seria um crime tirar o precioso e talvez único livro da biblioteca do Mosteiro, argumentando que ele nunca seria devolvido. Se o livro for herege, será um crime mantê-lo num espaço tão sagrado como este.
- Mas a Inquisição vai destruí-lo. – insisti eu, pensando mais na preservação daquele valioso exemplar do que numa argumentação convincente acerca da sacralidade da obra.
Foi portanto o argumento que me derrotou.
- Se os Inquisidores o destruírem é porque ele não tem valor.
- E o conhecimento e a verdade sobre Jesus Cristo onde fica no meio de tudo isto?
- A verdade é o que o Papa está escrito nos Evangelhos.
- Este também pode ser tão verdadeiro como os outros.
- Estás proibido de entrar na biblioteca até o Inquisidor-Mor de Lisboa, decidir o que fazer com a tradução e com o livro original. Não sei por que motivo tu escolheste a vida religiosa, se não queres seguir as suas regras.
Então recordei mais uma vez o que me fez escolher esta vida. Enveredei pela vida eclesiástica, porque, tendo eu dezassete anos, conheci o ser mais belo do mundo terreno, a Beatriz, agora Dona Beatriz de Gusmão. Eu vou tratá-la só por Beatriz, pois é com esse nome que ainda hoje a vejo nos meus sonhos mais tentadores. Beatriz era sobrinha de Sua Alteza, o Duque de Barcelos, e eu vi-a pela primeira vez, quando fui com o meu pai à Sé de Braga assistir às cerimónias da Paixão de Cristo durante a Semana Santa. O meu pai dava-se muito bem com o pai de Beatriz. Durante a cerimónia em Latim, fiquei sentado ao seu lado e trocámos alguns tímidos olhares.
Seguiu-se a Via Sacra, durante a qual caminhámos lado a lado e fomos conversando, primeiro, sobre o tempo frio que fazia, depois, sobre a mensagem de Cristo, sobre poemas de Horácio, que era o nosso poeta preferido, e sobre o Auto da Alma, uma peça representada habitualmente num palco de madeira construído ao lado da Sé. De repente, Beatriz desequilibrou-se por causa de um buraco da irregular estrada e eu amparei-a, evitando que ela caísse. Nos breves mas marcantes momentos em que ficámos encostados, senti o seu agradável perfume, a sua cintura nas minhas mãos, o seu rosto junto do meu, a sua mão direita no meu ombro, os seus olhos nos meus e ouvi a sua doce voz a agradecer-me com as palavras “Obrigado, Luís!”. No momento da despedida, peguei na sua mão e levei-a aos meus lábios com ternura. Foi agradável sentir a sua doce, alva e macia pele.
Como por milagre, a minha família foi convidada para a festa do décimo sexto aniversário de Beatriz que se comemorou no mês seguinte. O meu pai, a minha mãe, o meu irmão mais velho e eu chegámos ao solar, onde se realizava a festa. Quando a vi no seu belo vestido, fiquei mudo perante tanta beleza. Ela estava mais bela do que nos meus sonhos. Eu sorri-lhe e ela aproximou-se de mim e disse: “Bem-vindo, Luís!”. Eu gaguejei que ela estava muito bonita. Ela sorria para mim e para os cerca de cinquenta convidados que lá estavam. Durante o banquete, tive a sorte de poder ficar sentado do seu lado esquerdo. Conversámos sobre a brevidade da vida, sobre as cantigas que os jograis cantavam e acompanhavam com os seus instrumentos musicais. Mas a maior surpresa surgiu, quando o pai de Beatriz, sentado ao lado do meu anunciou: “Tenho uma grande novidade para vos contar. A minha querida filha Beatriz aceitou casar-se com o filho de D. António de Gusmão, numa união que vai ligar estas duas ilustres famílias”. Eu não pude conter a minha alegria. Era um milagre, ninguém tinha falado comigo, mas tinham acertado na mulher que eu amava. Porém, a decepção veio depois, quando vi o meu irmão, que estava sentado do lado direito de Beatriz, levantar-se e pegar na mão de Beatriz, que olhou para mim e para o meu irmão. Eu fiquei tão decepcionado que abandonei o salão e fui chorar para o jardim. Quando voltei ao salão, já a minha família se estava a despedir. No momento em que me fui despedir de Beatriz, ela perguntou-me onde me tinha metido, pois desaparecera sem nada dizer. Eu com a voz ainda embargada, disse-lhe que tinha ido conhecer o jardim. Ela disse que me tinha procurado, pois precisava de me falar. Eu só lhe respondi que se precisava de falar com alguém que falasse com o meu irmão. Virei-lhe as costas e fui para a carruagem. Só a voltei a ver no dia do casamento. Então, ela entregou-me uma carta. Quando me apanhei sozinho, abri-a:
Amigo Luís de Gusmão,
Peço-te desculpa, se te fiz magoar, mas foi tudo um mal entendido. Quando o meu pai me perguntou se desejava casar com o filho de D. António de Gusmão, eu não sabia que tu tinhas um irmão e logo aceitei com a maior da felicidade. No dia do meu aniversário, depois do anúncio do meu pai, quando o teu irmão Miguel se levantou e pegou na minha mão, eu fiquei tão admirada que fiquei sem reacção. Quando voltei a mim, procurei-te por todo o lado para tentar conversar contigo para que tentássemos resolver a situação em conjunto. No momento em que te queria contar, tu viraste-me as costas e eu não o revelei. Depois que todos os convidados saíram, fui falar com o meu pai e contei-lhe que queria casar contigo e não com o Miguel. O meu pai ficou muito espantado, mas disse que tinha dado a sua palavra, que era um homem de honra e que não voltava com a sua palavra atrás. Eu argumentei que ele tinha anunciado que o casamento era com o filho de D. António de Gusmão e que não faltaria à sua palavra se eu casasse contigo. Ele retorquiu-me que o contrato do casamento era válido para o primogénito, que seria o herdeiro da Quinta de S. Torcato, e do título do teu pai. Eu fartei-me de chorar e escrevi várias cartas para te pedir ajuda, mas não tive coragem de tas enviar... Se estás a ler esta, foi porque eu queria saber que eras tu com quem eu queria casar. Desculpa todo o sofrimento que eu nos fiz passar, mas eu não tive coragem de enfrentar a vontade do meu pai sem ter a certeza de que tu me amavas também. Agora é tarde e o teu irmão também é muito simpático e não merece um escândalo. Eu quero ser uma boa esposa e uma boa mãe. Guarda este segredo e sê feliz!
Beatriz
Depois de ler esta reveladora carta, senti que a culpa era minha por ter fugido do salão e que Beatriz era uma vítima como eu. Sabendo que nunca iria amar nenhuma mulher como amo a Beatriz, resolvi entregar-me a celibato e ao estudo da palavra de Deus, ingressando na ordem criada por S. Bento, porque uma das características da ordem é o trabalho como meio de se atingir o bem e chegar a Deus, a outra é o carácter social da ordem e do seu sentido de comunidade vivendo para o bem dos outros. Seguindo um ideal de pobreza, que admite alguns poucos bens pessoais e bens da comunidade que podem ser muitos mas devem sempre ser utilizados para benefício do próximo.
Assim, afastei-me da minha família e nunca mais vi a doce Beatriz.
Sei que já tenho dois sobrinhos e uma sobrinha, mas, para evitar um sofrimento maior, optei por me afastar....
Foi por esta conversa que eu fui suspenso do meu cargo, passando a ir trabalhar para a cozinha, que não era um serviço menos digno, mas eu preferia alimentar o espírito a alimentar o corpo.
De seguida vou tentar reproduzir o que me lembro do evangelho que eu traduzi, para que fique registado em mais algum sítio que a Inquisição não tenha acesso, começando pelo encontro de Jesus com Maria Madalena, pois é a partir desse encontro que mais se destacam as diferenças, entre este e os outros evangelhos:
De madrugada, apareceu outra vez no Templo, e todo o povo ia ter com Ele; sentou-se e pôs-se a instruí-los. Entretanto, os escribas e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério e, depois de a colocarem no meio. Disseram-lhe:
- Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu, que dizes?
Isto diziam eles para Lhe armarem uma cilada, a fim de terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, pôs-se a escrever no chão com o dedo. Como persistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes:
- Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra! - inclinando-se novamente, recomeçou a escrever no chão. Eles, porém, quando isto ouviram, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus com a mulher, que continuava ali no meio. Jesus ergueu-se e disse-lhe:
- Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?
- Ninguém, Senhor – respondeu ela.
- Nem eu te condeno -volveu-lhe Jesus. - Vai e doravante não tornes a pecar.
- Obrigada, Senhor! Mas quem sois vós?
- Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.
- Falas por enigmas, mas a tua linguagem fascina-me. Eu chamo-me Maria Madalena e quero seguir-te.
Depois, Jesus expulsou um demónio de um mudo. Quando o demónio saiu, o mudo falou, e as multidões ficaram admiradas. Mas uns dentre eles disseram:
- E por Belzebu, príncipe dos demónios, Ele expulsa os demónios.
- Mas Jesus, que conhecia os seus pensamentos, disse-lhes:
- Todo o reino dividido contra si mesmo será devastado e cairá casa sobre casa. Se Satanás também está dividido contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que é por Belzebu que eu expulso os demónio?. É uma contradição: Dizer que é por Belzebu que eu expulso demónios, é como dizer que alguém se expulsa a si próprio. Mas, se eu, pelo contrário, expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós. Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, os seus bens estão em segurança; mas, se aparece um mais forte e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos. Se Belzebu não está comigo, está contra mim. Quando o espírito imundo sai dum homem, vagueia por sítios áridos em busca de repouso; e, não o encontrando, diz: Voltarei para minha casa, de onde saí. Ao chegar, encontra-a varrida e arrumada. Vai então e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele; e, entrando, instalam-se ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro.
Enquanto Ele falava, Maria Madalena, levantando a voz do meio da multidão, disse:
- Felizes as entranhas que Te trouxeram e os seios que Te amamentaram! Ele, porém, retorquiu:
- Diz antes: felizes os que escutam a palavra de Deus e a põem em prática.
Ao fim do dia, Maria Madalena convidou Jesus e os seus discípulos a passarem a noite em sua casa, onde vivia com sua irmã Marta. Maria sentara-se aos pés do Senhor e escutava a sua palavra. Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços e, aproximando-se, disse:
- Senhor, não te importas que a minha irmã me deixe só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.
O Senhor respondeu-lhe:
- Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada. Há horas de servir os homens e horas de servir o Pai. Não devemos viver só para servir a humanidade. É necessário levar uma vida de equilíbrio.
Nessa noite, Jesus esteve com Maria Madalena.
Durante a noite, Maria Madalena começou a deslizar suavemente a mão pela perna de Jesus e
- Jesus, conta-me a tua infância.
- Apesar de minha mãe habitar em Nazaré, eu nasci em Belém, conforme estava escrito, porque ela teve de ir a Belém recensear-se. Como as estalagens estavam cheias por causa do recenseamento, eu nasci numa gruta onde se guardavam animais. Tive de fugir com a minha família para o Egipto perseguido pelos soldados de Herodes, que, por se sentir ameaçado pelo meu nascimento, mandou matar todas as crianças com menos de dois anos para que eu não escapasse.
- Que crueldade! A mães das crianças assassinadas devem ter sofrido imenso!
- Se sofreram! Às vezes penso que teria sido melhor que os meus pais me tivessem levado a Herodes para evitar tamanho infanticídio. É realmente cruel o martírio de tantas pessoas que morreram e morrerão por causa da minha mensagem... – dizendo isto, Jesus deixava correr duas brilhantes lágrimas do seu rosto. – Mas a crueldade humana arranja sempre um pretexto para destruir o seu próximo. A minha vida será apenas mais um dos muitos pretextos que os homens atribuem para saciarem a sua sede de destruição.
- Quando regressaste do Egipto? – perguntou Madalena, mudando de assunto.
- Depois da morte desse rei cruel, como já não corria perigo, fomos viver para Nazaré, onde ajudei o meu pai terreno no ofício de carpinteiro. Depois da sua morte tive de trabalhar para ajudar a minha mãe a sustentar a casa, mas aos trinta anos, senti que tinha chegado a minha hora e parti a pregar a palavra de meu Pai.
- De teu pai!?
- Tens razão, é melhor dizer nosso Pai, pois ele é o Pai de todos nós...
- Isso significa que nós somos irmãos?
- Todos os homens são irmãos e é triste ver como se matam uns aos outros em batalhas por causa da ambição e do egoísmo. Os animais selvagens não são tão cruéis.
- O Nosso Pai não teria poder para alterar o coração dos homens para evitar a sua maldade?
- Tal como um pastor, ainda que consiga afastar o faminto lobo, nem sempre pode salvar todas as suas ovelhas de serem atacadas por ele, assim o Pai, ainda que seja infinitamente poderoso, também deixou o livre arbítrio ao homem para poder escolher se prefere seguir o seu caminho ou o do insaciável Satanás.
- Um jovem belo, como tu devia ter tido muitas namoradas...
- O meu amor é pelo Pai e por todos os homens e mulheres do mundo.
- Tens de ter um coração enorme para conseguires amar tanta gente...
19 de Junho de 1573
Hoje, os meus irmãos do convento acharam muito estranha a minha mudança da Biblioteca para a cozinha e eu revelei-lhes o motivo e a conversa que tivera com o nosso superior, não obedecendo ao seu pedido de silêncio. A maior parte colocou-se do lado do superior, dizendo que o livro era uma invenção dos protestantes para desacreditarem os católicos. Eu disse-lhe que o evangelho que estava a traduzir era muito anterior ao protestantismo. Só um deles, frei Tiago, é que se acreditou ou fingiu acreditar-se em mim. Foi fazendo perguntas sobre alguns episódios e eu ia contando-lhe a versão que lera no evangelho de Maria Madalena.
Certo dia, subiu para um barco com os seus discípulos e disse-lhes:
- Passemos à outra margem do lago.
E fizeram-se ao largo. Enquanto navegavam, adormeceu. Um turbilhão de vento caiu sobre o lago, e estavam inundados e em perigo. Aproximaram-se dele e, despertando-o, disseram:
-Mestre, Mestre, nós perecemos!
E ele, acordando, falou imperiosamente ao vento e às águas, que se acalmaram; e veio a bonança. Disse-lhes depois:
- Onde está a vossa fé?
Cheios de medo e admirados, diziam entre eles:
- Quem é este homem, que até manda aos ventos e à água, e eles lhe obedecem?
- Como podeis viver sem fé? Sois como um homem que recebeu uma enorme herança em moedas de ouro. Desde que a recebera, como não tinha necessidade de trabalhar, estava sempre fechado em casa com medo que lhas roubassem, quando não estivesse em casa. Um dia três salteadores entraram em sua casa. Ele tentou evitar que eles lhas roubassem, mas os salteadores esfaquearam-no até à morte. Ele não só perdeu as moedas, mas também a sua vida. Assim, sem fé, quando partirdes deste mundo, não só perdereis os bens materiais, mas também não alcançareis a vida eterna.
20 de Junho de 1573
O trabalho na cozinha tem absorvido os meus pensamentos. Sinto falta do trabalho na biblioteca, que me instruía espiritualmente, e da leitura de uma magnífica epopeia que chegara recentemente à biblioteca e que se chama Os Lusíadas. Tenho conversado muito, sobretudo com o frei Tiago que me tem feito perguntas sobre o evangelho, hoje, enquanto lavava a loiça, contei-lhe o seguinte:
Depois Jesus foi para Betânia, em casa de Simão, o leproso, e estando à mesa, Maria Madalena, que trazia um frasco de alabastro com perfume de nardo puro, de elevado preço, partindo o frasco, derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus, banhou-lhe os pés com lágrimas e secou-os com os seus cabelos. Alguns, indignados, disseram entre si:
- Para quê todo este desperdício de perfume? Poderia ter sido vendido por mais de trezentos denários e depois dava-se o dinheiro aos pobres.
E censuravam-na irritados.
Mas Jesus disse:
- Deixai-a; porque estais a atormentá-la? Praticou em mim uma boa obra; sempre tereis pobres entre vós e podereis fazer-lhes bem quando quiserdes, mas a mim nem sempre me tereis. Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu antecipadamente o meu corpo para a sepultura. Em verdade vos digo, onde quer que se proclame a Boa Nova, pelo mundo inteiro, contar-se-á também o que ela fez, em sua memória.
- Se este homem fosse profeta – insistiu Simão – saberia quem é esta pecadora que lhe está a tocar!
Então, Jesus disse a Simão:
- Não julgues para que não sejas julgado, mas, houve o que te vou contar: um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?
- Aquele a quem perdoou mais, creio eu.
- Julgaste bem – confirmou Jesus, passando a sua mão pelos ondulados cabelos negros de Maria - Se houvesse um outro homem que já não devesse dinheiro a esse prestamista, qual seria a gratidão desse homem em relação ao prestamista?
- Nenhuma.
- Tu ages como se fosses o terceiro homem e já não tivesses qualquer dívida, pois entrei em tua casa e não me deste água para os pés. Vês esta mulher? Ela banhou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrei, não deixou de beijar-me. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me com perfume. Por isso, digo-te eu que lhe são perdoados pecados, porque muito me ama.
Começaram, então os convivas a perguntar uns aos outros quem era aquele homem que até perdoava os pecados, algo que só estava ao alcance de Deus.
Frei Tiago disse-me que o que lhe contara era muito semelhante, ao que estava escrito nos outros evangelhos. Eu respondi-lhe que também achava, o que mudava era visão dos acontecimentos. O que é diferente é o que se passou a seguir e que não vem narrado em nenhum evangelho:
Uma noite, Jesus estava com os seus discípulos, enquanto acariciava o cabelo de Maria Madalena, então Judas perguntou:
- Mestre, devias amar todos os teus discípulos da mesma forma.
- Eu amo-vos a todos como irmãos, pois somos filhos do mesmo Pai, mas cada um terá a sua missão. Para ti, Judas, guardarei o maior sacrifício, pois és o mais corajoso de todos e o único que será capaz de executar o plano do nosso Pai. Simão, ficará conhecido por Pedro, pois será a rocha sobre a qual edificarei o novo templo. João terá a missão de registar por escrito a minha mensagem. Madalena também terá uma missão muito importante, mas, por ser algo muito secreto, será de todos vós a que menos será lembrada ou a que mais será difamada. Por isso não tenhais ciúmes uns dos outros. Amai-vos uns aos outros como eu vos amo! Por isso é que todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros, como eu vos amei, estareis a seguir o meu mandamento. Se me amais, guardareis os meus mandamentos. Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da Verdade, que habita convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. Ainda que o mundo me não veja mais, vós ver-me-eis; porque eu vivo, e vós vivereis. Nos dias de chuva e de nevoeiro, não conseguimos ver o Sol, mas nós sabemos que ele está lá no alto. Quero que pensem em mim dessa forma, mesmo que não me vejam, lembrem-se de que eu estarei sempre convosco. A visão é um sentido como os outros. Nem sempre precisam de escutar uma pessoa para saberem que ela está convosco, também não devem exigir ver-me sempre para saberem que eu estou no meio de vós. Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu amá-lo-ei e manifestar-me-ei a ele.
Disse-Lhe Judas:
-Senhor, como é que te vais manifestar a nós e não ao mundo?
Jesus respondeu:
-Se alguém Me ama, guardará a minha Palavra; meu Pai amá-lo-á e viremos a Ele e faremos nele morada. Quem me não ama, não me conhece e, por isso não me reconhecerá, mesmo que eu esteja ao seu lado. Assim como um cão conhece o seu dono, mesmo que este esteja disfaçado, também aqueles que me amam me reconhecem em qualquer lugar, nem que eu esteja sob a forma de outra pessoa.
- Quando descobriste que eras filho de Deus? – interrogou Madalena.
- Foi Ele que mo revelou. Quando, na minha infância, fui ao templo de Jerusalém com os meus pais terrenos e ouvi a palavra das escrituras da boca do Sumo Sacerdote, descobri que podia falar directamente com o Pai. A partir desse dia, tenho conversado com Ele regularmente e ele tem revelado a Sua vontade.
- Ensina-nos a conversar com ele – pediu Madalena.
- Como um bom pai procura sempre atender os pedidos dos seus filhos, o Pai de todos nós, que é infinitamente bom, mais facilmente atenderá quem lhe pede com respeito e humildade. Primeiro, devemos invocá-lo, tratando-o por Pai; depois, devemos elogiá-lo e, finalmente, fazer os pedidos imprescindíveis para a nossa vida, dizendo o seguinte:
“Meu Pai, que estás no Céu,
Santificado seja o teu nome,
Venha o teu reino,
Seja feita a tua vontade
Assim na Terra como no Céu,
O pão de cada dia me dai hoje,
Perdoai-me as minhas ofensas,
Assim como eu perdoo
A quem me tem ofendido,
Não me deixes cair em tentação,
Mas livra-me do mal.”
- São belas essas palavras, mas como poderemos ouvir a Sua voz? – perguntou um dos discípulos.
-Em verdade vos digo, a voz do Senhor podia ser escutada no riso de uma criança, no voo de uma ave ou nas conversas do nosso próximo, mas para os que têm dificuldade em perceber o que se passa à sua volta, se escutarem os seus próprios pensamentos, saberão sempre qual é a verdadeira resposta de Deus. Ele está em todos nós, só é preciso saber e querer escutá-Lo.
- Ensina-nos a escutá-lo – perguntou Madalena.
- É o que eu tenho tentado fazer.
Frei Tiago considerou o relato muito interessante e perguntou-me se havia a narração da ressurreição de Lázaro. Eu contei-lhe que era semelhante às dos outros evangelhos:
Estava então doente Lázaro, de Betânia, irmão de Maria Madalena e de Marta.
Mandaram dizer a Jesus:
- Senhor, o irmão daquela que tu amas está enfermo.
Ouvindo isto, Jesus disse:
- Essa enfermidade não é de morte, é antes para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.
Maria de Madalena, ao saber da notícia, pediu a Jesus que voltassem para Betânia, mas Jesus disse-lhe:
- Só daqui a dois dias é que partirei para Betânia, mas tu deves regressar já para preparares a minha chegada.
Marta regressou a casa na companhia de dois discípulos.
Dois dias depois, disse Jesus aos seus discípulos:
-Vamos outra vez para a Judeia.
Disseram-lhe os discípulos:
- Mestre, ainda agora os Judeus procuraram apedrejar-te, e tornas para lá?
Jesus respondeu:
- Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas, se andar de noite, tropeça, porque nela não há luz. Lázaro, o nosso amigo, dorme; mas vou despertá-lo.
Disseram então os seus discípulos.
-Senhor, se dorme, estará salvo.
Jesus falava da sua morte, mas eles pensaram que falava do sono natural. Então Jesus disse-lhes claramente:
- Lázaro está morto e folgo, por amor de vós, por lá não ter estado, para que acrediteis; mas vamos ter com ele.
Disse então Tomé, chamado Dídimo, aos companheiros:
-Vamos nós também, para morrermos com ele.
Ao chegar, Jesus verificou que já havia quatro dias que estava na sepultura. Ora Betânia distava de Jerusalém quase quinze estádios e muitos dos Judeus tinham ido até junto de Marta e de Maria para as consolar da morte do irmão. Ouvindo Marta que Jesus estava a chegar, saiu-lhe ao encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa, triste e amuada por Jesus não ter salvo o seu irmão. Marta disse a Jesus:
-Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido! Mas também sei ainda agora que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá».
Jesus disse-lhe:
-Teu irmão há-de ressuscitar.
Marta respondeu: Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.
Disse-lhe Jesus:
- Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês tu isto?
Respondeu-lhe ela:
- Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo.
- A tua irmã?
- Ela está em casa desolada por não a teres acompanhado nesta hora tão difícil.
- Vai dizer-lhe em segredo que vá encontrar-se comigo junto ao sepulcro de vosso irmão.
Marta voltou a casa onde encontrou a irmã chorando.
- O Mestre está cá e chama-te para que te vás encontrar consigo junto do sepulcro.
Logo que ouviu isto, ela levantou-se e foi encontrar-se com ele. Vendo os Judeus que estavam com ela em casa e a consolavam que Maria se levantara apressadamente e saíra, seguiram-na, dizendo: «Vai ao sepulcro para chorar ali».
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar onde Marta lhe falara. Ao chegar aonde Jesus estava, Maria abraçou-o e lançou-se aos seus pés, assim que o viu, dizendo-lhe banhada em lágrimas:
- Senhor, se tu tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Fizeste tantos milagres a desconhecidos e não ajudaste o irmão daquela que te ama...
Quando a viu chorar e, vendo também chorar os Judeus que vinham com ela, Jesus comoveu-se profundamente, perturbou-se e perguntou:
- Onde o puseram?
Responderam:
- Senhor, vem connosco e vê.
Jesus, ao vê-los chorar, também chorou. Disseram então os Judeus:
- Vede como o amava.
Mas alguns deles disseram: «Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?» De intimamente comovido, Jesus chegou ao sepulcro. Era uma gruta e tinha uma pedra posta à entrada. Jesus disse:
- Tirai a pedra.
Marta, irmã do defunto, disse-lhe:
- Senhor, já cheira mal, pois tem quatro dias.
Jesus respondeu-lhe:
- Não te disse que, se cresses, verias a glória de Deus?
Tiraram, pois, a pedra e Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
- Pai, graças Te dou por me haveres ouvido - baixando a voz. - Eu bem sei que sempre me ouves, mas disse-o por causa da multidão que está em redor, para que creiam que me enviaste e que não sou eu que faço os milagres, mas Tu.
Tendo dito isto, bradou em alta voz:
- Lázaro, vem para fora!
E o que estava defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados por faixas e o rosto envolto num sudário. Disse-lhes Jesus:
- Desligai-o e deixai-o ir.
Então muitos dos Judeus que tinham vindo ter com Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram nele. Mas alguns deles foram ter com os fariseus e disseram-lhes o que Jesus tinha feito.
Os príncipes dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho e perguntaram uns aos outros:
-Que faremos, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se o deixarmos assim, todos crerão nele, virão os Romanos e destruir-nos-ão o Templo e a Nação.
Caifás, um deles, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes:
-Vós não compreendeis que vos interessa mais que morra um só homem pelo povo e não pereça a Nação inteira!
Ora ele não disse isto por si próprio, mas, sendo o Sumo Sacerdote durante aquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela Nação. E não somente pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir, pois, desse dia, resolveram matá-lo.
Jesus, por isso, já não andava abertamente entre Judeus, mas retirou-se para uma região junto ao deserto, uma cidade chamada Efraim, e por lá se conservou com os discípulos e com Maria Madalena, que estava tão grata pela ressurreição milagrosa do seu irmão que não largava a mão de Jesus.
Depois, partiu dali e foi para a sua terra, acompanhado pelos discípulos. Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Numerosos ouvintes enchiam-se de assombro e diziam:
- De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como opera tão grandes milagres por suas mãos? Como conseguiu tantos seguidores? Não é ele o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas? E as suas irmãs não estão aqui entre nós? Ele não passa de um impostor que quer iludir as pessoas...
Jesus disse-lhes:
- Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre o seus parentes em sua casa, pois a mesquinhez e a inveja dos vizinhos são o veneno que cega o espírito.
Jesus ficou admirado com a falta de fé daquela gente.
Sua mãe e seus irmãos vieram ter com ele, mas não podiam aproximar-se por causa da multidão que o seguia desde muito longe. Anunciaram-lhe:
- Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te.
Mas ele respondeu-lhes:
- Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra do Pai e a põem em prática.
Maria, mãe de Jesus, chorou ao ouvir aquelas palavras, mas Maria de Madalena aproximou-se e disse-lhe:
- Não chore, pois teve a glória suprema de dar à luz um filho que será a salvação do mundo, está ao serviço da humanidade. A sua mensagem é de união, de amor e de verdade...
- Eu entendo a sua missão desde que um Anjo me anunciou o seu nascimento, mas é tão difícil amamentar um bebé, vê-lo crescer, conviver consigo e, um dia, deixá-lo partir para um mundo que não está preparado para o receber.
- Não imagina como eu a compreendo... Eu sinto que ele está a preparar-se para nos deixar e nós não estamos preparados para ficarmos sozinhos... Se colocar a sua mão sobre o meu ventre sentirá que a semente de Jesus perdurará para sempre.
Maria passou levemente a mão pelo ventre de Madalena e disse:
- É maravilhoso saber isso...
- Eu ainda não lhe disse, mas penso que ele sabe... Ele parece conhecer os nossos pensamentos mesmo antes de os pensarmos. A senhora é a primeira pessoa a quem eu conto.
- Obridada pela confiança que depositou em mim. Espero ver-vos mais vezes...
Nesse momento, Frei Tiago interrompeu-me, dizendo que não podia ser verdade... que isso não podia estar lá escrito, que deveria ser uma má tradução. Eu disse-lhe que não me recordava das palavras exactas, mas que o sentido era aquele.
22 de Junho
Hoje, o Sol do meio-dia, trouxe ao vale do Mosteiro o Inquisidor Mor do Reino, D. Francisco Martins de Melo, uma dos maiores autoridades deste muito católico Reino, especialmente, para me interrogar. Chamou-me ao gabinete do superior. Tamanha e cansativa viagem de pessoa tão ilustre era sinal de que algo muito grave tinha acontecido. Quando eu cheguei o Inquisidor, pediu a D. Rodrigo que abandonasse o seu próprio gabinete e este, fazendo uma vénia como se estivesse a receber ordens de Sua Santidade, o Papa, em pessoa. Saiu da cela, recuando e fechando cuidadosa e silenciosamente a porta, que tinha azeite nas dobradiças para não fazer barulho.
Quando a porta se fechou, D. Francisco, um homem com o cabelo completamente branco e umas sobrancelhas muito carregadas de um negro de morte sobre uns encovados olhos escuros, que lhe davam um ar sinistro. Depois de ter ordenado que me sentasse, perguntou-me, como me chamava, que idade tinha, onde nascera, quem eram os meus pais, apontando as respostas por sua mão com uma caligrafia perfeita, numa folha com o selo da inquisição.
- Foi o senhor que encontrou o livro “Evangelho de Maria Magdala”?
- Fui. Encontrei-o na Biblioteca do Mosteiro.
- Sabe como é que ele apareceu na biblioteca do Mosteiro?
- Ele estava numa prateleira juntamente com outros livros oferecidos pelo famoso conde participante nas Cruzadas à Terra Santa, D. Egas Gomes de Sousa.
- Qual foi a ideia de o traduzir sem autorização?
- Eu tenho traduzido muitos livros sagrados e nunca tinha pedido autorização para o fazer.
- Então, confessa que traduziu o livro sem autorização.
- Já lhe disse que nunca pedi autorização para traduzir qualquer um dos inúmeros livros que traduzi. Algumas traduções até foram publicadas com a autorização da Santa Inquisição.
D. Francisco anotou que eu não tinha autorização para traduzir o livro e continuou:
- Como sabe, este livro não é sagrado, muito pelo contrário, é uma heresia, portanto o irmão cometeu um crime ao lê-lo e, sobretudo, ao traduzi-lo.
- Sem o traduzir eu não teria conhecimento do seu conteúdo.
- Uma vez que sabia Grego, só o título deveria bastar para saber que era um evangelho herético.
- Quem distinguiu os evangelhos sagrados dos outros não foi Jesus Cristo, mas o Homem e, ninguém nos garante que tenha escolhido os evangelhos mais fidedignos.
- A selecção dos Evangelhos foi por inspiração divina e obedeceu aos critérios mais rigorosos do apuramento da verdade.
- Se forem tão rigorosos como os da Inquisição...
- O que quer dizer com isso!?... – perguntou irritadamente o Inquisidor.
- Eu só estava a fazer um elogio à Inquisição – respondi eu, ironicamente.
- Ah bom! Temos de zelar para que a Santa Fé Católica permaneça pura neste mundo em mudança.
- Não será escondendo e destruindo pistas sobre a vida de Jesus a melhor forma de proteger a verdadeira Fé.
- Um evangelho com o nome de uma prostituta não tem credibilidade. Nem os tribunais civis ligam à palavra das prostitutas, quanto mais o nosso Santíssimo Tribunal. Além disso, como é que uma mulher de baixa condição social poderia, naquela época, saber escrever?
- Ela pode ter pedido a alguém que o escrevesse em seu nome, ditando palavra por palavra, tal como aconteceu com outros evangelhos. Quanto à credibilidade, Jesus veio ao mundo para perdoar e salvar os pecadores.
- Exactamente, por isso é que devemos ajudá-los a arrependerem-se dos seus pecados, porque, sem arrependimento, Jesus não perdoará os pecados.
- Mas o arrependimento não deve ser obtido com tortura.
- Ninguém foi mais torturado do que Jesus Cristo, nosso Senhor. Além disso, é uma heresia sugerir na tradução que Maria Madalena esperava um filho de Jesus. Isso não está no texto original, o que está no texto original é semente e tem mais a ver com a parábola do semeador do que com a geração de um filho.
- Na minha tradução também está semente e, se o texto leva a concluir que Maria Madalena estava grávida, a culpa é do original e não da tradução...
- Mas isso é uma blasfémia maior ainda do que dizer que foi Jesus que pediu a Judas que o traísse. Isso não cabe na cabeça de ninguém...
- Eu só me limitei a traduzir e penso que pode ter alguma lógica. Jesus só conseguiu a universalidade, porque morreu na cruz. Eu tenho a certeza de que se Jesus voltasse à Terra certamente seria morto novamente, não pelos Judeus, mas pelos seus “seguidores”. Talvez não fosse crucificado, mas queimado vivo para que não restasse nenhum corpo para ressuscitar.
- Não admito que digas uma heresia dessas! – levanta-se irritado o Inquisidor.
- Acha mesmo que se Jesus voltasse à terra, aceitaria que se prendessem pessoas em seu nome, que se obrigasse judeus ou árabes a serem cristãos sob pena de morte? Permitiria que se matasse em seu nome? A mensagem de Jesus era de Amor e não de perseguição!
- Jesus disse aos seus discípulos que fossem por todo o mundo e espalhassem a sua mensagem para que todos se salvassem... – sentando-se novamente, depois de conter a sua irritação.
- Jesus não os mandou queimar pessoas nem pô-las a tormentos. Pediu-lhes que espalhassem a mensagem através da palavra...
- Deixemo-nos de filosofias baratas e vamos ao que interessa. Tu acreditas naquele evangelho herege ou nos outros quatro?
- Eu acredito em todos, porque o evangelho segundo Maria Madalena não contradiz os outros, apenas os complementa...
- Com heresias. Se continuas com estes disparates, levo-te ao Tribunal de Santo Ofício.
- Sob que acusação?
- Por leres, traduzires e acreditares em livros proibidos.
- Mas em que lista aparece a proibição de ler esse livro?...
- Esse livro vai ser acrescentado ao Index.
- Mas a proibição não deveria ter efeitos retroactivos. Além disso, o livro já foi posto fora de circulação, ninguém o poderá ler e muito menos ser condenado por isso...
- Mas poderá ser condenado por andar a divulgar a sua mensagem.
- Não posso ser condenado por divulgar a mensagem dos Evangelhos...
- Divulgar a mensagem de evangelhos heréticos leva à condenação e eu sei que tu tens andado a divulgar o conteúdo desse mentiroso relato.
Aí eu pensei em Frei Tiago... Nem com ele podia contar. Estou completamente sozinho. A mensagem do evangelho ficará apagada para sempre... A não ser que alguém leia este diário e seja suficientemente livre para o divulgar. A minha ideia é esconder este diário em algum sítio de modo a que ninguém o descubra enquanto não houver liberdade neste país e nesta religião.
O Inquisidor-Mor continuava, não tinha feito uma viagem tão grande só para me dar um sermão. Comecei a perceber que estava em maus lençóis e que tinha de começar a jogar à defesa. Já tinham testemunhas contra mim.
- Então, não queres confessar a tua heresia. Isso pode ser a diferença entre os castigos a aplicar.
- Castigos porquê?
- Por divulgares heresias.
- Conversar com um amigo sobre o conteúdo de um livro que estava na biblioteca num mosteiro da Ordem dos Beneditinos não pode ser considerado heresia.
- Mas esse livro foi confiscado pelo teu superior e tu falaste dele depois de te terem dito que era herético. É melhor confessares o teu pecado e receberes a penitência por ele e o caso ficará por aqui e não será julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, que poderá levar à pena máxima.
- Posso ser queimado vivo por ter lido um livro da biblioteca deste mosteiro?
- Se negares o teu pecado...
- Mas eu não pequei...
Levantou-se irritado o Inquisidor-Mor, gritando:
- Estou aqui eu a tentar poupar-te a um julgamento e a uma provável condenação e tu não queres ajuda. Muito bem, vens para Lisboa comigo e serás julgado.
- O que Sua Eminência quer é que ninguém tenha conhecimento que o livro existe para não criar curiosidade e levantar dúvidas sobre Madalena e Judas – não consegui continuar na defensiva, apesar de ter sobre o corpo a ameaça da fogueira inquisitória.
- É a última oportunidade para reconheceres o teu pecado.
- Confesso a Deus todo poderoso e a vós irmãos que pequei muitas vezes por palavras, actos e omissões por minha culpa, minha tão grande culpa - batendo a mão direita no peito por duas vezes - e peço à Virgem Maria, aos Anjos e Santos que rogueis por mim a Deus Nosso Senhor. Ámen.
- Tu estás a tentar gozar comigo com a tua ironia? Não sabes com quem te estás a meter... Não sabes mesmo.
- Rezar uma oração com sinceridade não é ironia, mas há pessoas com a mente tão perversa que vêem pecado em todo lado. A sua mente está sempre a pensar o pior das outras pessoas, mesmo daquelas que só tentam praticar o bem.
- Estás a passar das marcas... Não há nada a fazer. Amanhã irás comigo para Lisboa. Vais para a tua cela e só sairás de lá, quando eu te for buscar pela manhã.
- Se é o que Sua Eminência deseja, assim farei, mas vamos aproveitar, que somos os únicos leitores vivos daquele relato para falar um pouco sobre o que lá está escrito e sobre a sua importância para a humanidade. Saber que Judas não era um traidor e Maria Madalena era uma mulher apaixonada e, talvez, à espera de um bebé não vai alterar muito a mensagem católica.
- Não devíamos estar a ter esta conversa, mas pensar que Jesus pediu para ser entregue é quase uma apologia do suicídio e que os Judeus e os Romanos não passaram de meros instrumentos para pôr em prática um plano de Jesus.
- Pode ser interpretado de outra forma: Jesus pediu a Judas que o entregasse para que, com a sua morte pública e posterior ressurreição, fizesse com que a sua mensagem tivesse um mártir e um mito e fosse divulgada por todo o mundo, cumprindo-se as escrituras.
- Isso faria de Jesus um calculista que conhecia as escrituras que se quis passar por Messias e, de certa forma, daria razão aos judeus...
- Não concordo com essa forma de ver as coisas, mas já percebi que Judas tem de parecer e permanecer um traidor. Agora, a relação amorosa de Madalena e de Jesus o que prejudicará a religião católica?
- Pois aí é que está o mais grave e o que me fez vir de Lisboa até aqui. Em primeiro lugar, considera-se Maria Madalena uma discípula com a mesma ou até mais importância que os apóstolos, o que levaria a não haver qualquer razão para que as mulheres não ministrem a eucaristia. Em segundo, o facto de Jesus ter uma companheira provocaria uma onda defensora do casamento dos sacerdotes. Em terceiro, está a questão da descendência de Jesus, o que levaria a que S. Pedro não fosse o herdeiro legítimo do legado de Jesus, dando razão ao aparecimento de outras correntes religiosas que poriam em causa toda a mensagem da Santa Madre Igreja Católica Romana. Em quarto, para algumas mentes perversas, o facto de ter tido um filho poderia ser interpretado como a ressurreição de Cristo, ou seja, Jesus não morreu completamente, porque deixou um herdeiro para continuar o seu caminho.
- Agora percebo – disse eu, já tendo noção do que implicava a mensagem veiculada por aquele evangelho há muito tempo. – O melhor será eu ficar calado e esconder a verdade para não pôr tantos dogmas em causa. Se reparar na tradição de fazer imagens de algumas Santas e de Santo António que têm uma criança ao colo ou de pintar anjos com forma de crianças, pode mostrar que a criança não é Jesus Cristo, mas um possível filho, que a Igreja Católica quis ocultar, mas os artistas mantiveram, na sua obra... Também poderíamos considerar que a religião católica interpretou mal a metáfora do sangue de Cristo...
- O quê?
-Na consagração do vinho em sangue de Cristo... Supunhamos que Jesus Cristo tinha dito aquelas palavras com Madalena grávida ao lado e ela simbolizaria o cálice com vinho, onde Jesus deixou o seu sangue para a posteridade... Assim, quando Jesus fala no seu sangue, não é o sangue do sacrfício, mas a descendência que deixa na Terra...
- É sempre interessante haver várias versões dos factos...
- Por isso é que se aceitam quatro evangelhos. Quatro versões são suficientes para ter uma ideia da verdade.
- Mas a versão descoberta não contradiz nenhum aspecto das outras, só acrescenta mais pormenores...
- Não contradiz!? – irritou-se novamente D. Francisco. – Dizer que Judas é um herói, em vez de um traidor é uma terrível e evidente contradição...
- Esta versão explica o motivo pelo qual Judas entregou Jesus e só poderia vir no Evangelho de Maria Madalena, pois ela era a única que conhecia o segredo...
- Muito bem, se era segredo, continuará a ser, porque Jesus assim o quis.
Bom argumento, pensei eu. Realmente, não percebi ainda por que motivo Jesus terá pedido segredo a Judas. Talvez para que os outros discípulos não o demovessem da sua missão...
- Não há contradição – continuou o D. Francisco cada vez mais convencido de que os seus argumentos eram irrepreensíveis e incontestáveis - ao dizer que Jesus tinha uma relação amorosa com alguém a quem disse “Vai em paz e não tornes a pecar, a tua fé te salvou”.
- Desculpe, mas aí não vejo qualquer contradição, muito pelo contrário...
- Bem... Eu já falei de mais... Amanhã irás para Lisboa comigo e não se falará mais nesse malfadado evangelho.
Assim terminou a conversa que eu tive com o Inquisidor Mor do reino. Sei que não posso levar o meu diário com a tradução dos excertos do Evangelho, por isso já escolhi o sítio onde o vou guardar. Será atrás de uma das pedras que estão soltas atrás da enxerga. Agora, vou escrever o máximo que possa do que me lembro da antiga tradução com a ajuda dos rascunhos que fiz e que ainda ninguém confiscou. Vou guardando página por página para que não seja surpreendido e o meu diário seja queimado comigo... O meu coração já ardeu há muito tempo, quando me tive de afastar da bela Beatriz. Qualquer tortura por que tenha de passar será menos dolorosa do que a dor de ter perdido a minha amada.
Uma noite, Jesus chamou Judas e afastou-se com ele. Sentaram-se numa rocha e Jesus disse:
- Judas, chegou a hora de te revelar a tua importante missão.
- A minha missão, Senhor? Eu estou preparado para realizar qualquer coisa por ti.
- Eu sei, por isso te escolhi para a realizares.
- Estou certo de que qualquer um era capaz de fazer qualquer coisa por ti.
- Não estejas tão certo disso, Judas. Vai haver um de vós que vai negar conhecer-me por três vezes no mesmo dia.
- Não é possível.
- Também sei que não vais executar a missão que eu tenho para ti com facilidade.
- É claro que farei qualquer coisa por ti, Mestre.
- Amanhã irás a Jerusalém, procurarás os príncipes dos sacerdotes, dir-lhes-ás que estás disposto a entregar-me antes da Páscoa e ele prometer-te-ão dinheiro como forma de agradecimento...
- Eu jamais Te trairei, Mestre!
- Se sou eu a pedir-te que o faças, não me estarás a trair.
- Mas eles matar-te-ão...
- Não duvides de Mim, eu sou a ressurreição, quem acredita em Mim não morrerá...
- Mestre, não me peças tal sacrifício!
- O sacrifício será meu. Eu serei o cordeiro de Deus...
- Eu não conseguirei viver sem Ti.
- Eu estarei sempre contigo. Só com o meu sacrifício e com a minha ressurreição é que a humanidade se salvará e acreditará mo Pai.
- Mestre, agora percebo por que motivo sonhei que os outros discípulos me apedrejavam e insultavam. Eu, no seu lugar, faria o mesmo contra quem te fizesse semelhante maldade. Tenho de lhes revelar o que me pediste.
- Não, Judas, só Maria Madalena saberá este segredo, pois ela guardará um ainda maior. Amanhã, irás ao templo e dirás aos príncipes dos sacerdotes que lhes entregarás Jesus após a ceia, no Jardim das Oliveiras.
Judas não dormiu nada durante essa noite, chorando e lamentando sua terrível missão.
No dia seguinte, Judas foi dizer aos príncipes dos sacerdotes que entregaria Jesus. Estes, quando o ouviram, regozijaram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. Judas disse-lhes que O entregaria nessa noite após a ceia no Jardim das Oliveiras.
Nesse dia, interrogado pelos discípulos sobre como passariam a Páscoa, enviou, então dois dos seus discípulos e disse-lhes:
-Ide à cidade e lá encontrareis um homem com uma bilha de água. Segui-o e, onde quer que entrar, dizei ao dono da casa: “O Mestre manda perguntar: Onde é a sala em que há-de comer com os seus discípulos”. Ele mostrar-vos-á uma grande sala no andar de cima, mobilada e já pronta. Fazei aí os preparativos.
Obviamente, os discípulos partiram e foram à cidade; encontraram tudo como ele lhes tinha dito e prepararam a Páscoa.
Chegada a tarde, foi com os doze. Enquanto estavam à mesa e comiam, Jesus disse:
-Em verdade vos digo: um de vós, que come comigo, há-de entregar-me.
Começaram a entristecer-se e a dizer-lhe um após outro:
-Porventura serei eu?
Responde-lhes Jesus:
- Esse homem é um dos doze, mete comigo a mão no prato e já sabe o que tem de fazer para me ajudar a salvar a humanidade. Ele terá de o fazer depressa e sem demora. Na verdade, o Filho do Homem seguirá o seu destino como está escrito a seu respeito e será o cordeiro de Deus que será imolado na Páscoa, mas ai daquele por quem o Filho do Homem é entregue! Esse sofrerá tanto como ele. Melhor fora para esse homem não ter nascido! Não vos escandalizareis, porque está escrito: “Ferirei o pastor e as ovelhas dispersar-se-ão. Mas, depois da minha ressurreição, preceder-vos-ei a caminho da Galileia”.
Pedro, espantado com aquelas palavras, retorquiu:
- Mesmo que todos venham a sucumbir, eu não te abandonarei e defender-te-ei com a minha vida! Jesus respondeu-lhe: Ai, Pedro, Pedro, em verdade te digo, hoje, esta mesma noite, antes ao galo cantar duas vezes, negar-me-ás três.
Mas Ele insistiu ainda mais:
- Mesmo que eu tenha de morrer contigo, jamais te negarei.
E todos afirmaram o mesmo.
Enquanto comiam, tomou um pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo:
-Tomai, isto é o meu corpo.
Depois, tomou uma taça, deu graças e entregou-lhas.
Todos beberam dela e Ele disse-lhes:
- Isto é o meu sangue, sangue de Aliança, que vai ser derramado por uma multidão. Em verdade vos digo: já não beberei do produto da videira até aquele dia em que o hei-de beber de novo no reino de Deus. Depois do Filho do Homem ter cumprido a sua missão, será a vossa vez, dois a dois, ide por toda a terra, sem nada levar para o caminho a não ser um cajado; nem pão, nem alforge, nem dinheiro, calçados com sandálias e apenas com uma túnica. Onde quer que entreis numa casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes vos não ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos pés. Ensinareis o novo mandamento que vos repeti imensas vezes: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros. Por isso é que todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros todos vos reconhecerão como meus discípulos. O que ligardes em nome do Pai, será ligado e o que desligardes, será desligado.
Os discípulos ficaram admirados com aquele discurso.
Após o canto dos salmos, saíram para o monte das Oliveiras. Enquanto caminhavam, disse Judas a Maria de Madalena:
- Jesus já te deve ter falado sobre a minha terrível missão...
- Missão... A tua missão é a mesma que nós ajudá-lo a divulgar a sua mensagem...
- Ele não te contou?
- O quê?
- O que eu tenho de fazer... e, pior do que isso, o que já fiz...
- O que é que tu fizeste, Judas?
- Tal como o Mestre me pediu, eu fui falar com o príncipe dos sacerdotes e anunciei-lhe que lhe entregaria Jesus hoje no Jardim das Oliveiras...
- Ele pediu-te uma coisa dessas!? Não acredito!...
- É como te digo...
- Então és tu aquele o entregará...
- Eu estou completamente angustiado, não sei o que fazer...
Entretanto, chegaram a uma propriedade chamada Getsemani, e Jesus disse aos discípulos:
- Ficai aqui enquanto vou orar.
- Jesus, preciso de falar contigo – disse Madalena, que tinha ficado para trás, enquanto conversava com Judas...
- Agora não, Maria!
- Mas é urgente, depois será tarde demais...
- Nada que tenhas para me dizer será novidade para mim.
Tomando consigo a Pedro, Tiago e João, foi orar. Madalena tentou segui-lo, insistindo que precisava de lhe falar, mas ele disse que tinha de orar e afastou-se. Ela caiu por terra a chorar, enquanto os discípulos tentavam levantá-la e acalmá-la.
Antes de orar, começou a sentir pavor e a angustiar-se, dizendo aos discípulos que o acompanhavam:
- A minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai.
Adiantando-se um pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse possível, passasse dele aquela hora, dizendo:
- Pai, tudo te é possível; afasta de Mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, mas o que Tu queres.
Depois foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:
- Dormes, Simão? Não pudeste vigiar uma hora? Vigiai e orai para não entrardes em tentação; o espírito está cheio de ardor, mas a carne é fraca...
Nessa altura, chegaram os soldados enviados pelo príncipe dos sacerdotes. Judas aproximou-se de Jesus e deu-lhe um beijo no rosto, como se estivesse a despedir dele.
- É com um beijo que me entregas, Judas?!
- Não, Mestre, é com um beijo que me despeço.
- Cumpriste a tua missão, agora é a hora de terminar a minha...
Os soldados dirigiram-se a Jesus e preparavam-se para o prender, quando Pedro se atira sobre um que não esperava ser atacado pela retaguarda, tirando-lhe a espada e cortando-lhe uma orelha. Logo os outros rodearam Pedro, com as espadas em riste, preparados para o atacarem. Jesus colocou-se no meio e disse:
- Parem todos! Tu, Pedro, já devias saber que quem com ferros mata, com ferros morre... Eles estão aqui a executarem o seu papel.
Pedro, larga a espada de cabeça baixa, envergonhado por ter desiludido o Mestre. Jesus baixou-se e apanhou a orelha cortada, colocando-a na cabeça do choroso e ensanguentado soldado. Milagrosamente, a orelha ficou colada no seu local. O soldado colocou-se de joelhos perante o seu salvador, mas os seus companheiros agarraram Jesus e levaram-no.
Pedro seguiu-os de longe até Jerusalém e Judas retirou-se para um local isolado. Os outros discípulos tentaram consolar Madalena que chorava desalmadamente, procurando, em vão, libertar-se dos braços que a agarravam para poder seguir o seu amado.
Pedro viu os soldados levarem Jesus até ao templo para se encontrar com o Príncipe dos Sacerdotes. Depois juntou-se a um grupo de peregrinos que estava a conversar numa estalagem. Uma mulher reconhecendo Pedro, perguntou-lhe:
- Tu não és amigo do Nazareno que os soldados acabaram de levar ao Príncipe dos Sacerdotes?
- Não conheço nenhum Nazareno – negou Pedro, como Jesus previra.
- Eu nunca me engano num rosto. Tu és um deles!
- Não sou.
Um dos homens que lá estava também o reconheceu.
- Tu eras uns dos que estavas com o Nazareno, quando ele expulsou os mercadores do templo. Estavas sempre a seu lado.
- Não era eu – disse Pedro, afastando-se daquele grupo, enquanto ouvia o galo cantar.
Pedro chorou de arrependimento por ter negado o seu Mestre e por ter mentido. Jurou a si mesmo que nunca mais mentiria nem negaria o seu Senhor, nem que isso lhe custasse a vida.
No dia seguinte Jesus, foi levado à presença de Pôncio Pilatos, governador Romano, que, não encontrando qualquer prova dos crimes de que os Sumos Sacerdotes o acusavam, enviou-o a Herodes. Ao ver Jesus, Herodes ficou extremamente satisfeito, pois levaria bastante tempo que o queria ver, devido ao que ouvia dizer, esperando que fizesse algum milagre na sua presença. Fez-lhe várias perguntas, mas ele nada lhe respondeu. Herodes, na presença dos seus oficiais, tratou-o com desprezo e, por troça, mandou-o cobrir com uma capa magnífica, enviando-o de novo a Pilatos. Nesse dia, Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois antes eram inimigos um do outro. Então, Pilatos, farto daquele assunto incómodo, perguntou aos judeus quem preferiam que fosse libertado nas festividades: Barrabás, líder dos rebeldes, assassino e ladrão, ou Jesus, que se intitulava Rei dos Judeus. O povo optou pela libertação de Barrabás e pediu a Pilatos que crucificasse Jesus. Assim, Barrabás foi libertado e Jesus foi entregue aos Judeus, pois Pilatos não queria ser responsável pela morte de alguém que não era ladrão nem assassino.
Os Judeus começaram por açoitar Jesus em público. A multidão sedenta de sangue gritava de prazer a cada chicotada, exclamando:
- Mais! Dêem-lhe mais!
Quando o iam conduzindo ao Calvário, um monte fora das muralhas da cidade, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram-no com a cruz, que Jesus levava de joelhos, após as três quedas que dera sob o seu peso. Simão levava a cruz atrás de Jesus, que era seguido por uma grande massa de povo e por umas mulheres, entre elas Maria de Madalena, que se lamentavam e choravam por causa dele. Maria de Madalena aproximou-se de Jesus para o abraçar, mas foi impedida e empurrada por um dos soldados que acompanhava Jesus.
- Meu Senhor, o que vai ser de nós.
Jesus voltou-se para as mulheres e disse-lhes:
- Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos, pois dias virão em que se dirá: “Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram.” Hão-de então dizer aos montes: “caí sobre nós, e às colinas: encobri-nos.” Porque se tratam assim a madeira verde, o que acontecerá à seca?
E levavam também dois malfeitores para serem executados com ele.
Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Tendo os soldados crucificado a Jesus, tomaram as suas vestes, de que fizeram quatro partes, uma para cada soldado —, e também a túnica. A túnica oferecida por Herodes, era toda tecida de alto a baixo, não tinha costura. Disseram uns aos outros: «Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será. Assim se cumpriu a Escritura:
«Repartiram entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitaram sortes».
Jesus dizia:
- Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem.
0 povo permanecia ali, olhando, e os chefes zombavam, dizendo:
- Salvou aos outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito!
Os soldados também troçavam dele e, aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
- Se és o rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo.
E por cima dele havia uma inscrição:
«Este é o rei dos Judeus».
Junto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. Ao ver sua mãe e, junto dela aquela que ele amava, Jesus disse à sua mãe:
-Mulher, eis aí o teu filho.
Depois disse a Maria Madalena:
-Eis aí a tua mãe.
E, desde aquela hora, passaram a viver juntas.
Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo:
- Não és tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
- Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam, mas Este nada praticou de condenável. Jesus, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino.
Ele respondeu-lhe:
- Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.
Por volta da hora sexta, as trevas cobriram toda a terra, até à hora nona, por o Sol se haver eclipsado. Depois, sabendo que tudo estava consumado, Jesus disse:
- Tenho sede.
Estava ali um vaso cheio de vinagre. Embeberam uma esponja no vinagre e, fixando-a a um ramo de hissopo, levaram-lha à boca. Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou, dando um grande grito:
- Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Tudo está consumado.
Dito isto, expirou e o véu do Templo rasgou-se ao meio. Vendo o que se passava, o centurião deu glória a Deus, dizendo:
- Verdadeiramente, este homem era justo!
E toda a multidão que tinha assistido àquele espectáculo, vendo o que acontecera, regressava.
Então os Judeus, visto ser o dia da preparação, para os corpos não ficarem na cruz ao sábado — pois no dia seguinte era sábado —, pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados e deitados ao “Inferno”, lixeira em constante combustão, que ficava fora das muralhas da cidade e para onde eram atirados os corpos dos condenados à morte, porque não eram dignos de serem enterrados em solo sagrado. Vieram então os soldados e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao segundo dos que tinham sido crucificados com ele. Ao chegarem a Jesus, vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados perfurou o lado com uma lança e logo saiu sangue e água.
Depois disto, José de Arimateia, em oculto por medo dos Judeus, pediu a Pilatos para levar corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e tirou o seu corpo, evitando que fosse queimado na lixeira infernal. Tomou o corpo de Jesus e com a ajuda das chorosas Maria, mãe de Jesus, e de Maria de Madalena, envolveu-o com ligaduras, juntamente com os perfumes, segundo a maneira de sepultar usada entre os Judeus. No lugar em que Ele tinha sido crucificado havia um horto com um túmulo novo, no qual ninguém fora ainda depositado. Por causa da preparação dos Judeus, como o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.
Quando Maria Madalena e a mãe de Jesus se dirigiam para junto dos outros discípulos, viram Judas enforcado numa figueira e Madalena entendeu o seu sofrimento, mas não percebeu como poderia Jesus ter-lhe pedido que ele o entregasse ao Sumo Sacerdote.
O dia seguinte foi passado por Maria Madalena e pela mãe de Jesus na maior angústia e tristeza.
No primeiro dia da semana, Maria de Madalena foi ao sepulcro, logo de manhã, ainda escuro, e viu a pedra tirada. Correu, pois, e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo e disse-lhes:
- Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram.
Pedro saiu com João e Madalena e foram ao sepulcro. Tal era a vontade de descobrir o que se tinha passado, que Pedro e João nem esperaram por Madalena. Corriam, pois, os dois discípulos à frente, João, por ser mais jovem, antecipou-se e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Depois, chegou Simão Pedro, que o seguiu. Entraram no sepulcro e viram as ligaduras no chão, o sudário que estivera sobre a sua cabeça; esse não estava, porém, com as ligaduras; mas enrolado à parte.
Entretanto Maria Madalena chegava junto ao exterior do sepulcro, chorando bastante. Enquanto chorava, viu dois anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira e outro aos pés, onde jazera o corpo de Jesus. Disseram-lhe eles:
- Mulher, porque choras?
- Porque levaram o meu Senhor, respondeu, e não sei onde o puseram.
Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, mas não o reconheceu. Disse-lhe ele:
- Mulher, porque choras? A quem procuras? Pensando que era o hortelão, ela disse-lhe:
-Senhor, se tu o levaste, diz-me onde o puseste e eu irei buscá-lo. Disse-lhe Jesus:
-Maria!
Ela, voltando-se, disse-lhe:
- Tu ressuscitaste? Claro, como fui louca em não perceber que, se tu ressuscitaste o meu irmão, também poderias ressuscitar-te.
- Mais louca foste por não conheceres as escrituras e não teres prestado atenção às minhas palavras “depois da minha ressurreição, preceder-vos-ei a caminho da Galileia”.
- Mestre, fica connosco, nós precisamos de Ti.
- Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.
Tendo dito isto, Jesus afastou-se. Maria de Madalena tentou segui-lo, mas rapidamente o perdeu de vista. Então, regressou e entrou no sepulcro e deu a nova aos discípulos:
-Vi o Senhor!
E contou-lhes o que Ele lhe dissera.
Os discípulos ainda estavam duvidando da ressurreição de Jesus, quando, na tarde desse dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se achavam juntos, com medo dos Judeus, veio Jesus pôr-se no meio deles e disse-lhes:
- A paz seja convosco.
Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor. E Ele disse-lhes de novo:
- A paz seja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós.
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
- Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.
Tomé não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos:
- Vimos o Senhor! Mas ele respondeu-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e não meter a mão no seu lado, não acreditarei.
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé estava com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-se no meio deles e disse:
- A paz seja convosco.
Depois disse á Tomé:
- Chega aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.
- Respondeu-lhe Tomé:
- Meu Senhor e meu Deus!
Disse-lhe Jesus:
- Porque Me viste, acreditaste. Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam!.
- Fica connosco, Mestre – pediu Pedro.
- Eu estarei sempre convosco. Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, estarei eu também com eles. Preparai tudo para partirdes dois a dois para contares a todo o mundo que das Trevas se fez Luz e que a Vida venceu a Morte.
Foi a última vez que Jesus apareceu aos apóstolos reunidos, havendo no entanto relatos de que apareceu algumas vezes mais a alguns discípulos isoladamente.
Passado algum tempo, os discípulos espalharam-se por todo o mundo. Maria Madalena, João e Maria, mãe de Jesus, partiram para a Eritreia
Epílogo
O diário que deu origem a este romance foi devolvido ao IPPAR, no dia 18 de Agosto de 2006.
Aproveitei essa minha ida a Lisboa para consultar os arquivos da Inquisição e do Tribunal do Santo Ofício na Torre do Tombo. Procurei em todos os processos de 1573 e encontrei um com o nome de Frei Luís de Gusmão. O processo constava de duas páginas apenas! Diz o seguinte:
Frei Luís de Gusmão, frade da ordem dos Beneditinos no Mosteiro de Pombeiro, foi acusado, no dia 25 de Junho de 1573, por ordem de Sua Eminência, o Inquisidor Mor do Reino, D. Francisco Martins de Melo, de divulgação de ideias que vão contra os mais sagrados dogmas da mui Santa Madre Igreja Católica Romana. Posta a questão pelo Inquisidor Mor se o Frei Luís de Gusmão tinha contado a Frei Tiago que considerava que o apóstolo Judas não era um traidor e que Maria Madalena era companheira de Jesus. O acusado disse que o que dissera se baseara num livro escrito em grego, intitulado “Evangelho de Maria Madalena” que traduzira e que se encontrara na Sagrada Biblioteca do Mosteiro de Pombeiro. O Inquisidor Mor perguntou onde estava esse livro naquele momento. O réu respondeu que não sabia, porque a Santa Inquisição o havia confiscado. O Inquisidor Mor pediu que ficasse registado que o réu não apresentou nenhum livro como prova do que dizia e que no Index da biblioteca do Mosteiro não constava qualquer livro com esse título. Assim, por se dar como provado de que o réu andou a divulgar ideias que vão contra os mais sagrados dogmas da Santa Madre Igreja Católica Romana e por falta de provas de que tinha tirado informações de um livro constante na sagrada biblioteca do Mosteiro de Pombeiro, o réu foi condenado à excomunhão e à morte num Auto de Fé a realizar no dia 30 de Julho do ano da graça de 1573.
Na acta do processo não contava mais nada.
Um facto que eu tenho de reter de tudo isto é que em dois mil anos de história a mentalidade das pessoas não tenha mudado muito. Há dois mil anos, o povo preferiu libertar um criminoso, Barrabás, em vez de um Homem de paz, Jesus. Também hoje, as pessoas votam mais facilmente em corruptos, em ditadores e em fugitivos à justiça. Hitler também arrastou multidões atrás de si...
sexta-feira, 16 de março de 2007
Se tu fosses...

Eu seria a abelha

Que ia recolher o teu néctar
Para fazer o doce mel
Ou tornar-me-ia a água
que te regaria diariamente
para te fazer brotar.
Se tu fosses a terra,

Eu seria a semente
Que se entranharia em ti
Para germinar,
Tornando-me a árvore
Que tu suportarias

Se tu fosses o mar,
Eu seria o rio transparente
Que em ti desaguaria
Para que a doce água

Se diluísse no teu sal
Ou tornar-me-ia a ilha
Que eternamente
Estaria cercada por ti.
Se tu fosses o universo,
Eu seria o cometa

Que te percorreria
Para conhecer todos
Os teus escondidos segredos
Ou tornar-me-ia
A mais bela estrela
Que te iluminasse.
Como tu és muito mais
Do que tudo isso,
Pois és Mulher,
Eu quero ser o Homem
Que te complete
Numa união perfeita.
quarta-feira, 7 de março de 2007
O NAVIO DOS CONDENADOS
Em cena aparecem dois navios, onde chegam as almas das personagens que acabam de morrer.
DIABO- Está quase na hora de partir o cruzeiro dos danados e hoje ainda não tenho clientes!... Será que o mundo mudou? (Entretanto entra em cena um homem de fato e gravata que se aproxima autoritariamente do Diabo) Afinal, parece que o mundo não mudou... (conclui o Diabo com um sorriso).
PRIMEIRO MINISTRO- Para onde vai este navio?
DIABO- Bom dia, também cá se usa! Este navio levar-te-á para onde mereces ir...
PM- O senhor sabe com quem está a falar para me tratar por tu?
DIABO- Sei, estou a falar com Sua Excelência Professor Doutor Engenheiro Primeiro Ministro (acentua intencionalmente cada título).
PM- Ah, bom... Assim sim! Mas para onde vai esse navio?
DIABO- Vai para a cidade dos políticos...
PM- E onde fica essa cidade?
DIABO- No magnífico e maravilhoso reino do Inferno...
PM- Reino do Inferno!?... Eu... eu não posso ir para lá, porque... porque não sou monárquico, mas republicano. Entrar nesse reino seria contra os meus princípios.
DIABO- Vossa excelência nunca teve problemas em ir a Espanha nem ao Reino Unido, que também são monarquias... Mas se vossa excelência o desejar, pode propor um referendo aos cidadãos do Inferno para mudarem a constituição e passarem a viver num regime republicano. Para mim é indiferente ser rei ou presidente da república.
PM- Para evitar incómodos eu vou antes àquele navio... Pode ser que tenha um destino melhor...
DIABO- O destino foste tu, desculpe, foi Vossa excelência que o traçou com as mentiras que disse e com as promessas que fez e não cumpriu...
PM- Eu cumpri tudo que prometi!
DIABO- Não me minta que eu não sou seu eleitor. Lembra-se de ter prometido não aumentar a idade da reforma, criar 150 mil postos de trabalho e diminuir os impostos.
PM- Todos os políticos mentem...
DIABO- E todos os que vão para o Inferno também... Mas vá lá ao outro navio que eu espero.... Tenho toda a eternidade para esperar.
PM- (Chegando junto do outro navio) Ó senhor comandante! Senhor comandante!
ANJO- O senhor comandante não está.
PM- Onde é que O posso encontrar?
ANJO- No Paraíso.
PM- Será que me pode levar até Ele?
ANJO- Só estou autorizado a levar quem mereça?
PM- Eu, na qualidade de Primeiro Ministro, autorizo-o a levar-me.
ANJO- Ah! Ah! (Rindo-se) O senhor aqui não manda nada!
PM- Mas eu precisava de falar com Ele para O convencer a levar-me...
ANJO- Ele não se convence com palavras, mas sim com actos.
PM- Ainda bem, pois eu participei em muitas missas e dei chorudos donativos para as cerimónias religiosas. Além disso, deixei lá quem rezasse por mim e quem mande rezar missas pela minha alma...
ANJO- Não era desses actos que eu falava... mas de qualquer maneira o senhor Primeiro Ministro só participava nas missas para ser visto pelos eleitores e os donativos eram dinheiro dos contribuintes. Ninguém rezará por si, as pessoas rezavam era para que não lhes aumentasse os impostos, para que aumentasse os salários e para que cumprisse as promessas. Agora dão graças a Deus por se verem livres do senhor. Embarque naquele barco (aponta para a embarcação do Diabo) que foi feito à sua medida (entra no seu navio).
PM- Nada mais me resta do que entrar no outro navio ( aproxima-se do barco do Diabo). Resolvi embarcar no seu barco.
DIABO- Demorou a decidir-se, mas mais vale tarde do que nunca... Embarque, embarque Sua Excelência Professor Doutor Engenheiro Primeiro Ministro que o seu lugar há muito tempo que lhe estava reservado. Faça uma boa viagem!
(Entretanto aproxima-se um árbitro de futebol com o seu equipamento habitual rasgado acompanhado pelo presidente de um clube. Ambos apresentam marcas de terem sido agredidos).
ÁRBITRO- Nunca pensei que os adeptos daquele clube ficassem tão revoltados... Nunca mais prejudico a equipa da casa.
PRESIDENTE DUM CLUBE-. Não sei onde estamos nem percebo o que fazem aqueles dois navios neste cais.
ÁRBITRO- Deve ser para a viagem ao Brasil que me tinhas prometido se eu te beneficiasse... Mas o acordo tinha sido que eu poderia levar toda a minha família.
DIABO- Bom dia, meus senhores. Entrem no navio que a maré está boa para partirmos.
ÁRBITRO- Eu não posso embarcar já pois espero a minha família.
DIABO- A sua família irá noutra viagem, porque ainda viverá muito tempo...
ÁRBITRO- Viverá muito tempo?! Quer dizer que eu estou morto?!
DIABO- Então não se lembra que, depois de ter anulado dois golos à equipa da casa e de ter assinalado uma grande penalidade que não existiu favorável ao clube deste senhor que o acompanha, os adeptos invadiram o campo e vos agrediram até à morte?
ÁRBITRO- Eu já tinha sido agredido várias vezes e nunca me tinham assassinado...
PRES. CLUBE- Se estamos mortos o que fazemos aqui e para onde nos quer levar?
DIABO- Estão aqui para embarcarem para o maior estádio do mundo, o estádio do Inferno.
PRES.- Mas eu não quero ir para esse estádio.
ÁRBITRO- Nem eu, livra!
DIABO- As vossas vidas assim o destinaram...
PRES.- Mas eu que dediquei a minha vida a dirigir uma associação desportiva para ajudar os jovens da minha cidade a praticarem desporto, criando-lhes infra-estruturas e oportunidades para se afirmarem e não seguirem pelos caminhos da droga. Além disso, sempre pugnei pela verdade desportiva.
DIABO- Tu só eras presidente para te promoveres socialmente e para desviares dinheiro para a tua conta pessoal sempre que vendias o passe de algum jogador. Também não ajudavas os jovens da tua cidade, pois ias buscar jogadores ao estrangeiro. Os jovens da tua cidade só te serviam para agredir os adeptos de outros clubes e para comprar camisolas dos jogadores confeccionadas na tua fábrica. A verdade desportiva que defendias era comprar os árbitros para que o teu clube ganhasse sempre. Aos árbitros que não se deixavam comprar telefonavas a fazer ameaças de morte, se o teu clube não ganhasse.
PRES.- Mas eu nunca cheguei a matar ninguém.
DIABO- Pois não, porque os médicos salvaram aquele árbitro que tu perseguiste na auto-estrada, provocando-lhe um grave acidente. Também te lembras daquele guarda-redes a quem tu pagaste para deixar entrar os golos necessários para a tua equipa ganhar e dos documentos que falsificaste para que um jogador que estava para ir para outro clube fosse para o teu.
PRES.- Quem é o senhor que saber isso tudo?
DIABO- Sou o presidente da Inferno SAD.
ÁRBITRO- Eu não estou aqui a fazer nada, pois não me lembro de ter arbitrado nenhum jogo desse seu clube.
DIABO- Pois não, mas a partir de agora só vais apitar os jogos desse meu clube. Embarca que é para dares início à partida.
ÁRBITRO- O que ganharei eu se der a vitória ao seu clube?
PRES. - (Aparte) Este tipo é mesmo estúpido!...
DIABO- Antes do encontro começar terás direito a uma viagem com tudo pago até ao estádio do Inferno e, depois, terás direito a uma estada eterna com pensão completa no meu hotel.
ÁRBITRO- Aceito! Só tem de dizer aos jogadores da sua equipa para se atirarem para o chão dentro da área.
PRES. - Vamos antes àquele navio que pode ser que tenha um melhor rumo para nós.
ÁRBITRO- Pode ser que me apresentem uma melhor proposta.
DIABO - Até já, camaradas.
PRES. - (Chegado ao navio do Anjo) Senhor Comandante, bondoso amigo, dai-nos o privilégio de embarcar no vosso magnífico e bem-aventurado navio.
ANJO - E quem sois vós para merecer tão grande privilégio?
PRES.- Eu sou o generoso e vitorioso presidente do Clube de Futebol, que promoveu o desporto, as regras de civismo e o respeito pela minha região.
ANJO - O que tu promoveste foi a corrupção, a intimidação, a violência e a fraude.
PRES. - Mas só assim era possível que a minha equipa ganhasse sempre, apesar de vender os melhores jogadores do plantel...
ANJO - Os fins nunca justificarão os meios.
ÁRBITRO- Eu tive conhecimento que a sua equipa ia jogar contra a daquele comandante e que eu serei o árbitro... Se o senhor comandante me deixar embarcar eu farei com que a sua equipa ganhe nem que tenha de expulsar os jogadores da outra equipa por sofrerem faltas, como está agora em voga.
ANJO - Sai daqui, pois estás completamente fora de jogo!
ÁRBITRO- Ai é assim, pois então quem sai é o senhor... (mostra ao Anjo o cartão vermelho que trazia no bolso) Eu expulsei-o.
(Nesse momento o Anjo desaparece)
PRES. - Tu és mesmo parvo... Expulsaste a nossa única salvação para não irmos para o Inferno. Assim temos de ir na barca do Diabo.
DIABO- Por cá outra vez, meus queridos senhores.
PRES. - Penso que será a melhor solução para nós, depois deste gatuno ter expulsado o comandante do outro navio.
ÁRBITRO- É o hábito...
DIABO - Entrem, meus senhores, pois esta é a vossa casa!
Depois do árbitro e do presidente terem embarcado, vem um Médico.
DIABO - Seja bem-vindo, senhor doutor.
MÉDICO- Sou bem-vindo a que lugar?
DIABO - Ao porto dos que morreram...
MÉDICO - Eu morri?!
DIABO - Sim! Não te conseguiste curar... Aliás como nunca conseguiste curar ninguém porque a morte é certa.
MÉDICO- Mas eu tentava adiar a morte...
DIABO - Os medicamentos que receitavas só serviam para que as empresas farmacêuticas te pagassem viagens.
MÉDICO- Não morria ninguém por eu receitar medicamentos de umas marcas em detrimento de outras.
DIABO - Mas escolhias os mais caros e as pessoas tinham dificuldade em pagar. Além disso, atrasavas as consultas no Centro de Saúde para que os doentes fossem ao teu consultório na clínica, onde tinham de pagar muito dinheiro para gastares com a jovem amiga da tua filha com quem traías a tua mulher.
MÉDICO- Mas... mas como sabe isso tudo?
DIABO - Os meus diagnósticos são sempre acertados ao contrário dos teus. Lembras-te de teres amputado a perna sã a um doente que tinha gangrena na outra perna? Por tua causa o indivíduo ficou sem as duas pernas.
MÉDICO- Eu indemnizei-o bem...
DIABO - Não foste tu, foi o hospital com o dinheiro dos contribuintes.
MÉDICO- Vou àquele navio para ver se recebo uma segunda opinião mais optimista.
DIABO- Vai lá, mas hás-de voltar, porque quem te vai tratar da saúde sou eu.
O Médico dirigiu-se ao navio do Anjo.
MÉDICO- Quem é o timoneiro deste belo navio?
ANJO- É Deus, Nosso Senhor, em quem tu nunca acreditaste.
MÉDICO- Na faculdade ensinaram-me a confiar apenas na ciência...
ANJO- Pois ela agora que te leve!
MÉDICO- Eu vi tanta gente jovem morrer com doenças graves, por que motivo Deus não as ajudou... Em alguns casos até foi a ciência que adiou a morte.
ANJO- Foi Deus que pôs a ciência ao serviço dos homens para os ajudar.
MÉDICO- Isso quer dizer que eu estive ao serviço de Deus, por isso Ele deixar-me-á entrar...
ANJO- Enganas-te, pois tu é que te serviste da ciência para enriqueceres e explorares os que sofriam. Além disso, lembras-te dos atestados falsos que passavas só pelo dinheiro que recebias em troca.
MÉDICO- Eu só queria ajudar as pessoas e elas diziam que estavam doentes...
ANJO- Quando elas cá chegarem serão julgadas pelas suas mentiras, agora estou a julgar as tuas....
MÉDICO- Já vi que não há nada a fazer, só me resta entrar no navio da perdição eterna...
O Médico voltou à embarcação do Diabo.
DIABO - Não te quiseram lá levar? Não te importes pois aqui serás transportado com gosto...
MÉDICO- Nunca imaginei que existisse este cais... Se soubesse teria levado outra vida.
Depois de o Médico ter embarcado, chega um Racista com a cabeça rapada e com uma camisola sem mangas e com uma cruz suástica estampada.
RACISTA - Para onde vai o barco, meu?
DIABO - Teu quê?
RACISTA - Olha-me este...
DIABO - Este quê?
RACISTA - Estás a gozar comigo?
DIABO - E tu dás gozo a alguém?
RACISTA - Que conversa foleira... É melhor ir embora que este não bate bem...
DIABO - Ai bato, bato... toma lá. ( Dando um pontapé no Racista) Vês como bato bem?
RACISTA - Ai! (atira-se ao Diabo para o agredir, mas é ele que apanha novamente) Deixa-me ir embora!
DIABO - (agarrando-o) Tu não vais a lado nenhum, pois embarcarás no meu navio?
RACISTA - E para onde me queres levar?
DIABO - Para o reino dos malvados como tu.
RACISTA - Ah bom! Se forem todos como eu, são todos fixes... Então lá não há pretos, que maravilha...
DIABO - Tu é que vais ficar tão preto como um tição apagado.
RACISTA - Eu nunca serei preto. Deixa-me ir mas é embora daqui que eu não estou para aturar este tolo.
DIABO - Quanto mais depressa fores mais rapidamente tornarás...
O Racista dirige-se à barca do Anjo.
RACISTA - Ó barqueiro branco, leva-me no teu navio.
ANJO- A tua alma está tão negra como o indivíduo que tu massacraste antes de morreres.
RACISTA- Eu sou branco!
ANJO- Vai no outro navio pois é lá que cabe todo o teu ódio.
O Racista volta ao navio do Diabo.
RACISTA- Eu optei por ir contigo.
DIABO - Não tinhas outra escolha... Embarca lá que está a chegar a hora de partir.
Depois do Racista ter embarcado, chega ao cais um Estudante com uma mochila às costas.
ESTUDANTE- Para onde vai esse navio?
DIABO- É uma visita de estudo ao Reino dos Infernos.
ESTUDANTE- Baril. Eu adoro visitas de estudo, assim já não tenho aulas. De quantos dias é a visita?
DIABO- É para toda a eternidade...
ESTUDANTE- Fogo! É tempo de mais!
DIABO- Tens razão, há lá muito fogo parta te queimar.
ESTUDANTE- O meu pai não me deixa ir nessa visita de estudo...
DIABO- Isso nunca foi um impedimento para ti. Tu costumavas roubar dinheiro ao teu pai para pagar as visitas de estudo e falsificavas a sua assinatura nas autorizações que os Directores de Turma te pediam.
ESTUDANTE- Com isso eu não prejudicava ninguém...
DIABO- E quando desrespeitavas os funcionários e os professores?
ESTUDANTE- Fazia isso porque eles me chateavam a cabeça...
DIABO- Tu não lhes obedecias, não fazias os trabalhos de casa, não te comportavas bem nem levavas o material necessário para as aulas.
ESTUDANTE- A escola não tinha condições...
DIABO- Pois não, tu e os teus colegas deitavam o lixo para o chão, partiam as cadeiras, estragavam os estores, partiam os vidros pontapeavam as portas, roubavam o giz e os apagadores, pisavam a relva...
ESTUDANTE- Os nossos pais pagam impostos para alguma coisa... Mas quem és tu?
DIABO- Eu sou quem te levará para onde mereces estar...
ESTUDANTE - Eu vou tentar saber para onde vai o outro navio.
O Estudante chega ao navio do Anjo:
ESTUDANTE- Para onde vai este barco?
ANJO- Para a terra dos afortunados.
ESTUDANTE- Então é para onde eu vou...
ANJO - Seria se tu o tivesses merecido, estudando, fazendo os trabalhos de casa, não copiando e comportando-te bem nas aulas.
ESTUDANTE - Os outros faziam o mesmo...
ANJO - Nem todos... Havia aqueles que se comportavam bem e que tiravam boas notas.
ESTUDANTES- Esses eram os “marrões” que andavam sempre a engraxar os professores.
ANJO- Não esses eram os que pensavam no seu futuro e sabiam que só conseguiriam ter uma boa profissão se obtivessem bons resultados para não serem falhados como tu.
ESTUDANTE- Eu não sou um falhado...
ANJO- Infelizmente és. Lembras-te daquela vez em que furaste os quatro pneus do carro de uma professora só por ela ter dito ao teu encarregado de educação que tu não te comportavas bem e, depois, não assumiste que foste tu que o fizeste, culpando outro colega...
ESTUDANTE- Bem... Vou ter com aquele amigo que me quer levar.
ANJO- Pela primeira vez fazes algo acertado! Parabéns!
O Estudante volta à embarcação do Diabo.
DIABO - Regressaste!?
ESTUDANTE- Aquele burro não me quer levar.
DIABO- Então, entra aqui que, se ele é burro, quem puxa a carroça és tu.
O Estudante embarca no navio do Diabo.
